Foi em uma das minhas idas e vindas entre Recife e Petrolina. Sentia um frio miserável: não estava preparado para aquela tormenta - trajava apenas uma bermuda e um camiseta. Por sorte, havia um jaquetão em minha bolsa que, logo após o primeiro calafrio nervoso, peguei e vesti. Não adiantou muito. Os músculos começaram a se debater como se quisessem saltar fora àquele corpo completamente gélido e quase sem esperanças de encontrar uma gostosa que me visse sentar ao lado - ou no colo, quiçá.
Aquele combate pavoroso contra o frio pela sobrevivência continuou por longos minutos até que o ônibus parou. "Minha salvação", pensei. Mas estava enganado. Como muitas vezes me enganei por essas estradas. Era só mais uma vez. O local da parada era Arcoverde - um cidade tremendamente fria, pelo menos àquela madrugada de meio de ano.
Desci e a tremedeira, que pareceu amainar-se por conta dos movimentos rápidos e descompassados, voltou duas vezes pior quando parei e pensei no que fazer. Meu cérebro estava lento - o que era bastante compreensível àquela temperatura. Decidi ir primeiro ao banheiro. As musculaturas de meu corpo continuavam desobedientes mas eu quase que não as sentia mais. Apenas percebia a flutuação estranha e desordenada da roupa, que parecia dançar um balé esquizofrênico. Que diabos! Será que os outros percebiam também? Não gostaria - jamais - de demonstrar fraqueza, frio, tremeliques muito menos.
No banheiro, enquanto mijava, percebi uma rã grudada na parede, perto do vaso sanitário. Por um momento, abalou-me a impressão de que ela a qualquer momento saltaria e grudaria em meu pênis, do mesmo jeito com que se agarrava à parede. Idiotice minha, claro. Aquela rã não era tão estúpida quanto eu. Bem que, àquela temperatura, talvez a parede fosse um lugar friamente inóspito. Pudera meu pau ser mais aconchegante. Não sei. Eu não o sentia.
Tentei lavar as mãos mas a água era como chama viva. Saí do banheiro e fui ao balcão fazer um pedido. Na televisão, um talk show desses impertinentes. O entrevistado parecia alguém muito comum - vestido com uma calça social e uma camisa um tanto menos social que a calça, mas ainda sob os moldes de formalidades aparentemente requisitados. Pedi um pastel e um suco. Não sei por que cargas d'água pedi um suco. Estava tremendo de frio, quase morto. Precisava de um café ou de uma boceta. Precisava de algo quente. Mas pedi um pastel e um suco - meu cérebro, definitivamente, não estava funcionando adequadamente. O salgado estava mais frio que o suco. Sentei e comi e bebi indiferentemente a tudo - ao frio, inclusive - e a todos - a um velho que parecia perceber minha tremedeira, inclusive.
Ninguém seria capaz de falar nada. Os humanos são assim, frios mesmo quando faz calor. Tenho a impressão de que poderia cair duro (e gelado) ali no meio da lanchonete que todos continuariam suas vidas medíocres como se nada tivesse acontecido. Jazeria, eu, ali, decrépito e sem vida, o ônibus soaria sua buzina apressada, os passageiros entrariam cabisbaixos e tudo voltaria ao normal - se é que tivesse em algum segundo abando a normalidade. Minto: talvez me enterrariam - os nativos, arcoverdenses, claro. Nunca os passageiros. Passageiros estão sempre muito ocupados passando. Não têm tempo nem de dar uma no ônibus.
- Em que você buscou inspiração para escrever esse livro que está lançando pela Editora Quem Lê Vai Para o Inferno?
- Nas coisas de sempre. Na vida e no mundo. Em tudo que há de bom e tudo que há de ruim. E como é engraçado o jeito como as coisas boas coexistem com tantas coisas ruins. Basicamente, o texto do livro trata disso mesmo: notar a mais pura e sutil beleza em tudo em que aparentemente só existem promiscuidade, maldade e feiúra. Por outro lado, ver como são corruptos e desprezíveis alguns aspectos da vida e do mundo em que aparentemente reinam a alegria, o amor e a paz.
- Essa ideia central do livro, se é que eu posso revelar, de o sujeito estar preso em um único dia da semana é algo que eu achei fantástico.
- Não é a ideia central do livro. Você leu? Leu o livro? Não é a ideia central do livro. É apenas um artifício para demonstrar o que era necessário. Além disso, há, no começo, uma parte da estória em que o personagem vive n'um sábado também. De início, isso só ocorreu por que eu não fazia a menor ideia do que é que estava escrevendo mas, depois, acabei gostando de como tudo ficou. Ou gostando mais ou menos. Sabe, há algo de lindo e paternal nisso também: meu pai se chama Domingos. Daí, talvez, a ideia de fazer o personagem viver apenas os domingos. Se bem que não. Trata-se apenas de uma coincidência feliz. Mas tem sempre gente por aí achando que se você faz, pensa ou escreve alguma coisa é por que você viveu determinadas situações na infância ou por que você é virgem ou depravado demais ou por que é louco ou por que é um palerma. Principalmente psicólogos, psiquiatras e gente dessa laia. Tudo bem, eles precisam ganhar o seu pão.
- Hahahahaha. Você é assim o tempo todo? Espontâneo e cheio de ideias? Quero dizer, seu livro é cheio de ideias dessas também mas não é uma autobiografia, certo? Essas ideias fazem mesmo parte de sua vida, do seu dia a dia? Você é assim corriqueiramente?
- De jeito nenhum, só quando tenho alguma exposição ou visibilidade. Preciso ganhar o meu pão, também, n'é? Por falar nisso, quem tiver vontade de ler o livro e não quiser comprá-lo, basta fazer o download na Internet. Eu mesmo disponibilizei o livro em vários fóruns de pirataria e nesses sites de depósito de arquivos, apesar de ele ainda não fazer parte do domínio público.
- Você é o primeiro escritor que vem aqui e faz questão de enfatizar que a pirataria pode ser realizada dessa maneira. Não acha que, assim, está desvalorizando o seu trabalho?
- Sabe, cara, a Internet é algo esplêndido. É quase tão esplêndido quanto uma bunda de mulher, sabe? É algo aterrador e comovente. Quando tudo isso - computadores, Internet e essa tecnologia toda - surgiu, eu já era meio velho e meio antiquado. Mas agora me dou conta de que a Internet é como um rio gigantesco, largo, extenso e profundo que flui sem querer saber se você está jogando esgotos nele, está se banhando em suas águas, mijando nelas ou fodendo dentro dele. Ele só está ali, fluindo e fluindo. A Internet é do mesmo jeito, sabe? Um rio pode ser a fonte de sobrevivência de milhares de famílias do mesmo jeito que pode matar muita gente. Mas eu posso salientar uma coisa: se alguém ler o livro e gostar - ou achar que gostou - e quiser ver outro livro meu publicado - e disponível na Internet também - aconselho que compre ou talvez eu não sobreviva por tempo o suficiente para encontrar outra editora como a Quem Lê Vai Para o Inferno. Aproveito para agradecer ao pessoal da Quem Lê Vai Para o Inferno. Eles são uma bênção divina.
- Tudo bem, mas eu insisto: você não acha que as ideias do livro já são demasiadamente permissivas e libertinas? Isto é, ainda tem que professar essas ideias anti-capitalistas e subversivas?
- Pensei que estivesse conversando com um apresentador de talk show e não com um crítico literário. Sabe, cara, críticos são potencialmente pessoas frustradas. Você, que é um homem do teatro, deve saber que, via de regra, críticos de teatro são atores frustrados. Cuidado por que, se a mesma regra vale para a literatura, você está se declarando um escritor frustrado ao me criticar desse jeito.
- Mas agora não é você quem está me criticando?
- Eu não posso criticá-lo. Nunca li algo do que você escreveu.
"A plateia não vai gostar desse entrevistado", pensei. Estava sempre repleta de dondocas universitárias cheias de frescuras e não-me-toque. Não mesmo. Não era uma plateia dotada desse senso humorístico que transcendesse os vieses artísticos daquele apresentador, que era idolatrado como quase o próprio Deus. Não mesmo. "Estará fadado à morte junto com todos os seus elogios tecnológicos".
O motorista fez soar a buzina do ônibus. Quase tão insuportável quanto o motorista, os passageiros, os atendentes e todos os outros humanos. Quase tão insuportável quanto o frio. Subi cabisbaixo. Nem notei se alguém havia morrido ou coisa parecida. Talvez sim, talvez não. Tanto faz. Estava ocupado demais passando por aquela cidade fria.