Saí do quarto apressado, como quem sai de si. O tiro tinha sido fatal, isso era certo: na cabeça, sem muita bagunça, sem balbúrdia, tudo bastante silencioso. Estava mal vestido e não tomava banho há várias horas. Os pés pretos. Parecia o que de fato era: um assassino a sangue frio de sangue latino quente e concupiscente.
Não que eu queira perdão ou a misericórdia alheia, mas eu tinha de fazer -- tinha de ser feito! O sujeito era só carne: sem sentimento, sem dor, sem culpa, sem amor algum, completamente frívolo até à mais ignominiosa boceta. Sem jeito. Aparentava até ter algum estilo mas aposto que não ia além dos cabelos compridos, o olhar galante de peixe morto e o porte atlético digno do Olimpo. Nada mais.
Já estava até morto, na verdade, penso eu. Vivendo às custas do governo -- uma aposentadoria de fazer pena --, escutando suas músicas velhas, lendo os velhos livros, acordando e deitando sempre do mesmo jeito, na mesma cama -- nessa mesma que agora impugna com seu sangue escuro e denso. Tocava sempre as mesmas músicas no seu velho saxofone. Não se empenhava em aprender novas. Nada novo. Ninguém novo. Nenhum broto. Sempre as mesmas bocetas velhas e frias. Vê, agora, que lhe fiz um favor?
A espera era o seu único delírio. O que ainda, não se sabe por que diabos, o prendia à vida, à terra e a essas coisas mundanas -- das quais eu, canonicamente, tive o desprazer de o extirpar. Esperava também não sei pelo quê. Talvez apodrecer mais e mais a ponto de ficar podre o suficiente para escrever um livro, plantar uma árvore, encontrar o sentido da vida... talvez.
Bem... agora não há mais dúvida alguma. Uma aposentadoria a menos.
E até nunca mais.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A Felicidade Boiando na Privada -- ou no Aquário de um Peixinho Desolador
O segredo é se manter instável, se manter inerte e se movimentando o tempo todo como um peixe se debatendo fora do aquário sem imaginar a imensidão e a majestosidade de todo o mundo que existe fora do seu maldito e pequeno aquário. Todo mundo morre mesmo. E ainda nem se vira peixe assado na brasa -- que é muito bom. Se bem que viver uma vida miserável toda dentro d'água de um aquário doméstico deve ser pior que qualquer inferno.
Já imaginou quanto tempo você perdeu sendo feliz? Digo perder no sentido amplo e mais compreensível possível da palavra -- já que tudo o que se faz aqui é perder mesmo. Perder tempo, paciência, células e até o juízo. O negócio é que há de se perder também essa felicidade mundana e obliteradora que nos corrompe até o menos devasso e subversivo instinto. Ser feliz ficou no passado, naquela viagem zen-budista ao nada, ao vazio, à cafeína e ao mais torpe e profundo desespero humano.
Já pensou se o peixinho dentro do aquário tá feliz, infeliz? Claro que não tá. Ele não liga pra isso. Ele é muito mais inteligente que você e não liga pra isso. Ele tem tudo de que precisa. E tudo que ele precisa são seus instintos peixinianos. Não tem produtividade, não tem cronograma, não tem desova pra entregar na segunda-feira nem merda nenhuma dessas criações da aberradora natureza humana.
Eu posso dizer e lhe digo, seja você meu amigo ou meu inimigo, a felicidade é completamente dispensável e prejudicial. Você descobre isso à medida em que vai ficando mais sério, mais velho, mais morto, mais gordo e -- possivelmente mas não necessariamente -- mais barbudo. É tudo a confirmação da mesma merda: tudo é uma merda. Inclusive este texto.
Já imaginou quanto tempo você perdeu sendo feliz? Digo perder no sentido amplo e mais compreensível possível da palavra -- já que tudo o que se faz aqui é perder mesmo. Perder tempo, paciência, células e até o juízo. O negócio é que há de se perder também essa felicidade mundana e obliteradora que nos corrompe até o menos devasso e subversivo instinto. Ser feliz ficou no passado, naquela viagem zen-budista ao nada, ao vazio, à cafeína e ao mais torpe e profundo desespero humano.
Já pensou se o peixinho dentro do aquário tá feliz, infeliz? Claro que não tá. Ele não liga pra isso. Ele é muito mais inteligente que você e não liga pra isso. Ele tem tudo de que precisa. E tudo que ele precisa são seus instintos peixinianos. Não tem produtividade, não tem cronograma, não tem desova pra entregar na segunda-feira nem merda nenhuma dessas criações da aberradora natureza humana.
Eu posso dizer e lhe digo, seja você meu amigo ou meu inimigo, a felicidade é completamente dispensável e prejudicial. Você descobre isso à medida em que vai ficando mais sério, mais velho, mais morto, mais gordo e -- possivelmente mas não necessariamente -- mais barbudo. É tudo a confirmação da mesma merda: tudo é uma merda. Inclusive este texto.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Cá Pra Mim
A coisa mais triste que existe no mundo é viver de superficialidade, só superficialmente. O lugar ideal para trabalhar é onde não existam almofadinhas. O tipo de pessoa que mais detesto é esse tipo dos baixos espíritos que não acredita em mudança -- principalmente na mudança de si mesmo.
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