quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Não Explique a Palavra

A literatura não é uma ciência. É arte. Como tal, não é possível esquadrinhar algumas centenas de axiomas a seu respeito e ponto: tudo definido, tudo sintática e semanticamente correto, tudo plausível para qualquer bom leitor que se valha de algum do - torpe - senso crítico literário. A literatura de verdade há de ser deglutida, ruminada, excretada e reciclada. Ou atirada ao lixo.
O bom leitor há de se valer dos seus estado de espírito, sentimento e carga empírica que leva consigo desde o nascimento. Só assim para se interpretar as poesia e prosa (em suas formas artísticas) como elas devem, de fato, ser interpretadas. Chega daquela interpretação medíocre das professoras de ensino fundamental - querendo descobrir sempre uma razão quase científica e metodológica de o poeta escrever sobre um rio, um corvo ou um espelho. A experiência do agente literário, afinal, é em demasia diferente da experiência de qualquer leitor de suas obras. Tentar exprimir racionalmente todo o sentimento que há nas letras é perder a melhor parte de tudo o que há nelas: o sentimento. Aliás, há sempre a possibilidade de um escritor ser simplesmente um belo mentiroso, um charlatão ou simplesmente um condenado - e estes sentem bem mais que qualquer razão científica que pudessem exprimir em versos e frases.
Sintetizando: não use o dicionário para fins emocionais. Se as palavras são, em sua maior parte, confusas e mal explicadas, viva! Joguem-se no lixo os termos inteligíveis. Não creio que existam textos impróprios para certas retinas, mas apenas que o resto do organismo (principalmente órgãos sexuais, estômago e cérebro) não se atém ao contexto do que é expresso. A literatura é livre.
A literatura é liberdade.
A literatura é libertina. Danem-se os críticos literários. Fodam-se seus cachecóis em seus pescoços roliços e afeminados. Deveriam usar uma lâmina em seu lugar. Basta de ódio. Não basta, não. Que explodam seus intelectos pernósticos e insensíveis que algum cretino pode tentar ver nestas palavras que escrevo. Que seus cabelos, ao cair, favoreçam alguma absorção de raios de sentimentos sifilíticos em lugar de apenas explicitar 'inda mais seus desejos homossexuais por uma glande.
Eu não sei porra de nada de literatura. Tudo que escrevo é completamente empírico (repeti a porra desta palavra e repetirei quantas porras de vezes forem necessárias e repetirei porra também e repeti e "e"). Devido a quê? Devido à minha professora de português do primário. Devido às garotas pelas quais me apaixonei veementemente. Devido às garotas pelas quais me apaixonei veementemente e nunca comi, feito faísca atrasada. Devido às garotas pelas quais me apaixonei veementemente e comi, feito um incendiário completamente desvairado. Devido aos meus hormônios, enfim. Não atribuo nenhum pixel de qualquer letra dessas a qualquer escritor que seja. Ele pode vir do inferno pra comer meu rabo esta noite, mas eu não mudo de ideia. Chega desta emotividade poética.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Meu velho amigo Chico

Dos tempos em que morei em Salvador, uma das únicas amizades que travei fora com seu Chico, que morava próximo à minha casa. Não era bem uma amizade. Mas apenas uma relação cordial, dessas que se fazem por onde e a gente nem mesmo sabe de onde. Dessas em que não existem cobranças, falácias e falcatruas. Dessas que não carecem de explicação. Não nos víamos sempre. Apenas de vez em quando, aos fins de semanas, feriados e (ou) dias santos, quando passávamos algum tempo conversando sobre coisas que não existem mais. Ou quando, na volta do colégio, eu o via sair de casa, com cara de satisfeito, de refeito, arrumando a roupa, conferindo o fecho éclair, acenando para mim e entrando no carro, de volta ao trabalho. Seu Chico era servidor público. Trabalhador público. Não sei bem ao certo, mas alguma coisa que não era dele mesmo. Era do público inteiro, menos dele.
Um dia, num desses encontros de vistas, resolvi me aproximar de supetão e indagá-lo sobre o que estava fazendo àquela hora, em pleno dia de branco (néscia expressão), quando deveria estar trabalhando - no diabos de lugar que fosse o local de sua labuta diária. Seu Chico me disse que os deveres com seu emprego eram, de fato, importantes. No entanto, os deveres que tinha com sua patroa eram ainda mais importantes que aqueles outros. Pensei alguns instantes naquilo e, antes que meu colega de amizade adentrasse seu carro, fingi que tinha entendido perfeitamente a situação. Que concordava com o que havia escutado. E que, acertadamente, agiria da mesma maneira quando arranjasse uma mulher - se viesse ao caso de arranjar uma algum dia.
Na verdade, o que me acometeu, ao ouvir aquela resposta, foi uma súbita e profunda tristeza. Tivesse me dito que a mulher o chamara para matar uma barata, que precisava afrouxar os colhões ou que não conseguia satisfazer suas necessidades mais básicas (se livrar de uma maldita dor de barriga com uma bela cagada, por exemplo) em outro lugar que não fosse o banheiro de sua casa. Ou não me tivesse dito coisa alguma, oras! Mas aquela explicação de ter de cumprir com seus deveres matrimoniais explicitava por completo o medo que sentia de levar cornos. Ele tinha medo. Medo de que, estando no trabalho, dona Madalena sentisse vontade de ter algo a mais entre as pernas. Algo além de uma vulva baiana úmida e libertina. Algo que não fosse dele, coitado.
Lembrei do meu velho camarada enquanto caminhava, ainda hoje, de volta da faculdade. Passei na padaria e o senhor que atendia ao caixa me chamou de campeão. Não nos conhecíamos. Não sei como ele adivinhara aquilo. Mas agora nos conhecíamos um tantinho mais, depois de saber que ele sabia o que eu era de fato. Paguei o que me era devido pagar e, ao me virar, vi a senhora que atendia ao balcão entregando um pão a um bebê, de cortesia. O menininho, de súbito, sem nem dobrar aquelas articulaçõezinhas na iminência de levar o pão à boca, continuou com o braço estendido, agora em minha direção, oferecendo-me o que havia acabado de receber - de cortesia! Não acreditei que era pra mim. Eu e cada fio de ignorância e estupidez que forma meu arisco bigode. Mas, logo depois, o pequeno ofereceu o pão a uma garotinha. Ofereceu daquele jeito dele, de olhos bem abertos e apenas o bracinho esticado, em gesto de firme e gentil atitude.
Saí da padaria com um sorriso no rosto. Ah, vamos. Não era apenas um sorriso. Era uma gargalhada completa que começava do chakra que é a nascente de todo e qualquer bom sentimento que um humano pode sentir. Uma sensação que não sentia já há algum tempo, que adormece indefinidamente dentro da gente e só se faz sentir quando se vê algo de sincero, real e da mais pura bondade - que quase já não há no mundo.
Talvez dona Madalena fosse como aquele bebê. Não se continha em receber apenas. Havia de dar. Recebia todo o sexo, que era dever de seu Chico, e o saía espalhando, às pernas estendidas. Quiçá nem tivesse sequer o trabalho de fechá-las. Despertava, em gestos de magnânima bondade, essas sensações tão aprazíveis nos diversos homens que eu via sair da casa do casal, quando, provavelmente, seu marido cumpria com outros deveres. Homem de tantos afazeres. Tenho para mim que ele era feliz: sabia que estava cumprindo com todos e isto era o que importava.
Este texto não ficaria completo se não houvesse um parágrafo aqui revelando a minha completa incerteza sobre todas essas maldades que são inerentes à espécie humana. Incerteza que já é, de certa maneira, uma das maldades. De quando em vez, convenço-me de que cada cidadão que saía das abas de dona Madalena, pela porta da frente de sua casa, estava ali para outro ofício, qual não o de satisfazê-la das suas mais torpes concupiscências. Um dia era o entregador de água, no outro já o carteiro, na outra hora era o cobrador de aluguel, minutos depois de seu Chico sair era o eletricista terceirizado. E assim ia se fazendo a minha bondade: encontrar emprego para todos aqueles cabras - talvez nem existam tantos cargos no Brasil. Possivelmente, foi onde empreguei toda a minha bondade em relação às minhas reminiscências do meu velho amigo. Bondade que foi de toda omitida nestas vis palavras. Não faço mais, seu Chico. Deixo tanta malevolência para dona Madalena.
Um abraço.

domingo, 24 de outubro de 2010

Anonimato Crítico

Outro dia algum filho da puta desses terráqueos que habitam este planeta de planta, água, terra e merda, criticou a minha poesia como uma mistureba de palavras sem sentido que não tinham que ver com nada e não diziam nada a quem quer que lesse aquilo. Na verdade, acho que ele não foi assim tão veemente e suas palavras não foram tão sinceras quanto as minhas. Ele haveria de se esforçar muito para alcançar tal nível de desespero textual. Mas, só de ter citado seu comentário e algumas das palavras que ali havia (dentre elas, "mistureba" realmente foi uma bem excitante), já é possível depreender o quão satisfeito eu fiquei com aquela crítica. O que me aborreceu, apenas, foi o fato de o indivíduo ter publicado as palavras de forma anônima, como se com medo de que eu o matasse ou algo pior - o chamasse de filho da puta, algo assim. Certamente, não me deve conhecer bem. E ter medo de ser xingado dessa maneira é a prova mais contundente de que não se tem certeza da idoneidade moral e probidade vaginal da própria mãe.
A poesia não foi feita pra ter sentido. Talvez, seja feita para dar sentido a alguma coisa. A existência de quem escreve aquilo. Ou a vontade de se entregar que alguém que lê possa sentir. Os próprios sentimentos não tem sentido algum. Veja só que esses dias me deparei com uma frase medíocre que ditava algo do tipo "quem tem sentido é soldado". Ou era quem faz sentido é soldado? Nem a própria porra da frase faz sentido algum. A vida não tem sentido, oras. Esses dias ouvi alguém dizer, também, que ao tempo da grande guerra sobreviveram ao campo de concentração aquelas pessoas que achavam algum sentido em suas vidas. Imagino que no campo de concentração isso não seja tão difícil. Só de estar ali, já há uma missão a cumprir. Os que não a encontravam eram, certamente, escritores ou poetas ou suicidas em potencial. Sempre gostei dessa expressão. As pessoas nunca entendem do potencial que temos.
Engraçado como as reminiscências têm saltado da minha cabeça ultimamente. Saltado para o mundo, para existirem, quero dizer. Não que as tenha esquecido por completo. Talvez seja fruto de uma pancada que levei esses dias. Que pode ter mexido também com outras partes do meu cérebro. Tentei achar alguma parte que eu não gostaria que fosse afetada, mas não encontrei. Entre tais lembranças, estava este comentário inútil que muito me alimentou o ego. O anonimato no ato da crítica é coisa do mais acovardado, desonesto, indigno e maltrapilho tipo de ser humano que possa existir, como já ditava Schopenhauer. Se é que existe ser humano que não seja desse tipo. O negócio é que o grande filósofo, que jaza eternamente em sono eterno, defendia que esse tipo deveria ser exposto, extinto, puxado pelas orelhas e desmascarado em frente a todos, como o ser ignóbil que de fato é.
Eu discordo. Sou um zero à esquerda, uma faísca atrasada, uma agulha perdida num agulheiro, mas tenho uma cabeça (que dói), dedos, teclado e banda larga. E discordo desta porra. Acho que esta raça deve se proliferar, foder muito com as mais elegantes, gostosas e estúpidas mulheres e perpetuarem esta espécie nesse mundo de satã. Este tipo de gente não tem condições mentais de ter pensamento próprio e acaba reformulando os pensamentos alheios, espalhando a ira de todas as dores de cotovelo através dessas palavras cobertas por uma camada espessa e impenetrável da mais pura inveja. E vê no anonimato uma forma mais aceitável de se conter à própria insignificância ao se deitar, ao tentar dormir. E conseguem adormecer tranquilamente, diga-se de passagem. E eu cá, nesta desgraça, repetindo todos os meus "e" que forem possíveis em toda e cada frase que vejo em minha frente.
Mas ao menos assino o que escrevo. E assino com o nome que tenho. Com o nome que meu avô me fez parecer o mais insultado e injustiçado do mundo, quando esqueceram de grafar o último nome no certificado de conclusão do ensino médio. Hahahaha. Deixa disso, Matheus. Falemos de críticas, anonimatos, anônimos, descarados e outros tipos de filhos da puta. Mas deixemos a família de lado. Falemos da seção de comentários deste blog, que não existe. Não existe por que não quero. Não faria diferença mesmo. Precisando comentar anonimamente, dirija-se ao quarto 11 da casa de nº421 da rua Mauricea (ou Mauriceia? Para mim, bom seria Mauricéia) do bairro Iputinga, Engenho do Meio, Cidade Universitária ou o caralho de asa que for -  e que seja.
Por que diabos é que sempre quando eu escrevo blog a auto-correção do blogger detecta como se fosse uma palavra escrita erroneamente? Engraçado... blogger tá certo, que soa ainda mais estranho. E soa tá errado. É de foder. Foder tá certo. Não importa o que diga a auto-correção. Blog me faz lembrar de prostitutas, que usam esse termo para denotar esquema, trabalho, programa, ué. Você deve saber mais que eu. E parece ser uma palavra tão comum, nestes nossos meios de escritores, web designers e prostitutas. Não deveria estar errada.
Não mesmo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sexo de Coletivo

Antes que alguém pergunte, eu vou acabar com esta infelicidade: sim! Tudo o que está escrito aqui é verdade. Eu sou mesmo um grande estraga desprazeres. Fico assaz contente por isto. Ainda mais em se tratando dos meus infortúnios. E, não pela primeira vez, serão postadas aqui mais algumas pieguices consuetudinárias. Palavras difíceis, reminiscentes dos ébrios e velhos tempos deste infeliz blog. E antes que alguém queira me indagar disto também, vou logo avisando. Não fique aí pensando que eu sou um idiota escrevendo palavras difíceis com um dicionário a tiracolo sem saber quais são suas intenções. Saiba: eu sou um idiota escrevendo palavras difíceis com um dicionário a tiracolo sem saber quais são as intenções delas. Também não sei quais são as suas, nem as minhas. Eu não sei de porra nenhuma.
O sucedido é que estava eu, em uma noite de sábado, muito sedento, sóbrio e solitário. Não por muito tempo. Sabia o que fazer. Muni-me do meu saca-rolhas e me atirei porta afora, com destino à parada de ônibus na Caxangá mais próxima - que estivesse parada. E é que estava mesmo. As ruas muito obscuras. Estranhei todo aquele mar de mansidão que envolveu a Cidade Universitária do Recife em pleno sábado à noite. Esperava barulho, balbúrdia, celeuma, burburinho e garotas de quase dezoito de minissaias e dispostas a seguir viagem no mesmo ônibus que eu pegasse - não importando qual seria esse. Não tinha nada disso. Mal havia luz na parada. Sorte que não houve espera também. Mal chegara na estação de embarque/desembarque quando vi aquelas inconfundíveis lanternas brilhantes me apontando. Esperei até conseguir enxergar a placa. Boa Viagem. Ergui o braço e vieram os gritos:
- Passa, passa!
- Já foi! Já vai!
- É o dele!
Assustei-me (hipérbole, claro). Eram uns motoqueiros que passavam do outro lado da avenida. Ainda bem que trouxe meu saca-rolhas, pensei.
Eu não tinha destino. Só estava à procura de vinho, charuto e boceta. Como sempre. Sempre sem destino, sempre à procura. Desci em uma parte da cidade onde nunca estivera antes. Era agitada. Alguns bares/restaurantes grandes. Poucas perguntas e vários passos depois, estava eu de volta à parada onde tinha desembarcado, com meu vinho e meu charuto a postos. E aquele sentimento de que ainda faltava algo. Vi Léo Jaime passar com uma latinha de cerveja na mão, falando ao celular. Um louco trajando apenas uma cueca boxer vermelha desceu de um ônibus. Era louco mesmo, eu acho. Está aí um caso excepcional em que acho justo usar de generalizações: ou todos são loucos, ou não. Léo Jaime veio para perto de mim, esperar algum ônibus. Talvez fosse meu fã. Tinha o celular ainda junto à orelha, mas nada de latinha de cerveja. O louco cuspiu perto de onde estávamos, vagueava de um lado a outro. Não lhe meti a mão por que eu estava vestindo cueca vermelha também. E não era boxer. O diabo do coletivo estava demorando.
Em meio às pessoas que estavam ali, havia um casal que me chamou atenção. Chegou de mansinho, quando eu já esperava há algum tempo. A mulher, mais próxima de mim, pareceu andar alguns milímetros em minha direção, de costas, propositadamente. Não sei se queria um ménage, só uns cornos imaginários na cabeça do namorado, dinheiro ou só sexo - que era o que eu queria também. As mulheres estão sempre querendo alguma coisa nesse sentido. O rapaz parecia bastante jovem. Ela tinha cara de quarentona fogosa e de feições ainda bem amenas. Comível, digamos assim. Usava uma saia jeans curta e uma tomara-que-caia rosa. Não era dessas que causam suspiros por onde passam mas, baixinha, certamente não deixava a desejar na cama. Aliás, acho que mulher nunca deixa a desejar na cama. Homem é que deixa. Bem, não sei. Nunca comi um. Também não estava vestida feito uma puta ou com charme e elegância suficientemente excitantes. Mas aquelas poucas peças de roupas, que deixavam à mostra uma porção de pele que ia desde a metade inferior do umbigo até o finalzinho da barriga, me fizeram querer descobrir todo o resto. Era de uma beleza desgastada e vadia que ainda guardava uma pontinha de nada de puerilidade. Nem que fosse no cantinho do olho, como se costuma dizer. Do olho do rosto.
O coletivo havia chegado e o casal subira logo antes de mim - sentou-se ao fundo, enquanto eu me reservei quase ao lado do cobrador. Por coincidência, pegaram o mesmo ônibus. Coincidência, é claro. Essa coincidência sadia e feliz que faz os homens nascerem com pinto e as mulheres com xana. E com clítoris, o que deixa as meninas com inveja dos meninos. E as mulheres tão deliciosas. Freud explica tudo. E, àquela altura da noite, eu buscava explicações. Encontrei uma. Subiu radiante por aqueles degraus sujos e indignos. Tinha cabelos dourados e olhos muito azuis. Da cor das águas mais azuis que existirem nesta Terra. De um jeito que eu nunca tinha visto. Vestia uma tomara que caia (esta sem hífens, tomara que caísse mesmo, só pra mim) verde-veludo e uma calça jeans. Era normalista. Não sei de onde tirei isto, mas era. Qualquer maníaco sexual poderia ter notado. Passou sem pestanejar para o fundo do ônibus. Perdi-me por alguns minutos em meus pensamentos. Talvez demorados minutos. Pensei nas ruas, nos perigos, nas explicações, nas músicas, no cobrador, no charuto. E mais em uma torrente de ideias sem sentido que uma mulher atraente provoca à cabeça de um homem.
Quando voltei ao meu estado de insana consciência, era tarde. Olhei para trás mas não vi a loura. Vi a outra. A mulher do outro que, aliás, não estava mais no ônibus. Talvez não fossem namorados. Aparentemente, estava dormindo, com a cabeça recostada no ferro da cadeira e a boca aberta. Babava, talvez. As pernas estavam desleixadas, contidas apenas pelo aperto da saia. Quase dava para enxergar sua calcinha. Não deu. Enxerguei apenas Léo Jaime, que estava sentado na cadeira à janela oposta à que eu estava. Talvez não fosse Léo Jaime.
Vi quando a mulher solicitou a parada, uma antes de onde eu desceria. Resolvi descer junto. Já tinha vinho e charuto. Um saca-rolhas, caso ela me resolvesse assediar. E meu pau, caso contrário. Desnecessário dizer que ela havia me visto e que já tinha tudo isto em mente, arquitetado maquiavelicamente em seus planos de mulher. Apenas dei sorte de estar neles. Tudo o que ocorreu depois estava marcado: tinha descido duas paradas depois da sua, sob o pretexto de estar adormecida, conversamos enquanto caminhávamos até o seu prédio, um velho e pequeno condomínio residencial, subimos dois lances de degraus escorregadios até parar em frente àquela porta vermelha com um número 13 dourado. Bebemos vinho, fumamos charuto, tiramos a roupa e contestamos Freud - tudo de acordo com os passos que ela nos tinha trilhado. Els apenas não esperava que, depois de tê-la levado ao paraíso, a enviasse agora para o inferno - com as mesmas língua e boca.
- Você conhece o inferno?
- É o quê?
- O inferno é um lugar aterrador. Onde não se enxerga coisa alguma. Só se sente o cheiro de enxofre misturado a ácido sulfídrico e o ardor eterno das mais torturantes queimaduras que se podem causar à alma de um condenado. Piores que em carne viva. Escutam-se infindos murmúrios, lástimas e ranger de dentes. Da dor que emana da hoste de desgraçados que não podem ser vistos mas têm sua presença notada da pior maneira possível. Suas súplicas por perdão e misericórdia divinos - quais jamais serão atendidas - ressoam através do fogo do inferno. Fogo que, às vezes, parece mais brando e quase insensível. E logo volta a castigar mais veementemente, feito um carrasco que cansa de cortar cabeças. Mas as continua cortando.
- Você é crente?
- Vamos acertar algo. Se eu acordar sem os rins, você vai para o inferno. Não importa quando.
Estava com medo. O medo matou os índios. O medo entregou o mundo nas mãos dos burgueses. O medo faz coisas terríveis. Até a gente perder uma boa companheira de foda.

domingo, 17 de outubro de 2010

Ré-ré-recomeço

Este blog está em mudança. Do mesmo modo que eu, na verdade, tanto tenho mudado ultimamente. Mudanças que em outros tempos me fariam pensar que sofro de algum transtorno psicológico como bipolaridade ou outra viadagem dessas. Mas uma coisa não mudou e talvez não mude nunca: ainda não sei por qual motivo alguém leria as porcarias que aqui estarão escritas enquanto durar a internet (espero eu). Quando descobrir, talvez pare de escrever. É como que uma obrigação, um carma, uma sina. Feito não conseguir dormir e ficar com a cabeça girando, girando. Girando em pensamentos mal acabados que acabam escritos em um blog destes qualquer, tão idiota quanto todos os outros. Mas nem sempre eu tive essa consciência de que não sabia por que as palavras são lidas. Lembro com muito pesar das críticas que já recebi por causa disso, quando transcrevia longos textos com assuntos relevantes à nobre causa da filosofia atual (que se encontra em frangalhos) e recebia como resposta o que merecia: "sim, e daí?". É por que não era sobre como conquistar as mulheres, como fazer o próprio pinto crescer, como entrar no big brother ou como os relacionamentos humanos são travados e como deveriam ser. É por que eu não sei dessa merda toda.
Sou um péssimo crítico. Pra não dizer ferrenho. Pra não dizer que acho tudo o que circula de informação literária por aí pela internet uma merda. Grandissíssima merda. Também sou uma merda, aliás. Mas tenho uma qualidade. Não sou tão convencido quanto Bukowski, quando dizia que, ao ficar em dúvida sobre a sua capacidade de escrever e sobre a qualidade de suas escrituras, bastava ler o que os outros escreviam e sabia que não precisava mais se preocupar. Quiçá, quando eu começar a não me preocupar, deixe de ser esta merda. Daí a mutação.
Estou escrevendo algo grande. Grande mesmo. Não é como "meu pau". Não, não. É coisa de muitas palavras. Escritas desde há um bom tempo... dois anos, mais ou menos. Tão sem sentido quanto alguém que vai à padaria, interage com as atendentes, compra pão, pensa em comer as atendentes e acaba comendo só o pão. Ou um balaio todo de pães. Mas dá lá alguma estima de se ver as muitas páginas de um enredo que vai se fazendo ao passo em que vai se vivendo. E as palavras se tecendo, se entrelaçando no papel que antes era todo de um branco desesperador. Prolixidade é uma puta gorda e fedorenta. Broxante também. Por falar nisto, tenho que parar de ler e reler mil vezes quando escrevo. Talvez seja outro transtorno.
Deixa ver se durmo. Pro seu próprio bem.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Independência ou vida

Peguei-me a pensar, hoje, na vida: maldita metalinguagem - já que pensar é privilégio de quem vive. Indagava-me, entre crianças, pais, mães e outros - como eu - infames solteiros, o que era necessário para ser um bom pai. Como para qualquer coisa que há nesse mundo: dinheiro é fundamental. Com a paternidade não há de ser diferente. Ora, um pai com recursos financeiros pode oferecer ao seu filho educação de qualidade, conforto, segurança e estabilidade material para se lançar à conquista de seus próprios sonhos, planos e independência.
Um pai  com dinheiro pode gerar um bom filho e, assim, tornar-se um bom pai.
Mas - deixe-me mentir egocentricamente por um instante - dinheiro não é tudo no mundo. Filhos também precisam herdar dos pais, além de fundos econômicos, toda a carga genética dos preceitos morais que se sucedem de geração a geração em uma família. E esses valores de ética e honra pessoais são, definitivamente, cruciais para se classificar um pai.
É a partir de todos os sermões, reclamações, castigos, palmadas, conselhos, diálogos e - acima de tudo - exemplos que os filhos de casa formam sua identidade e vão à rua, expô-la aos pontapés do universo. Os pais, como pessoas presentes a quase todo tempo no meio externo que circunda crianças, adolescentes e jovens durante suas fases de amadurecimento, são fatores que influenciam substancialmente nesse processo de formação.
Eu deveria estar pensando, nesse momento, o que Jesus pensaria se me visse escrevendo dessa maneira. Mas, em realidade, não é isso o que penso. Que diabos Bukowski pensaria se lesse um texto desgraçado como esse meu? Que foge completamente à realidade desse blog. Se bem que, por ser assim, está de acordo com a minha loucura transcrita.
Enfim, a única coisa que eu queria mesmo escrever é que para ser um bom pai é necessário pensar na geração que o mesmo irá gerar bem antes de começar a foder bocetas ou comprar fraldas descartáveis. Creio que bons pais pensam em seus filhos a partir do momento em que tomam ciência de sua posição de filho e da posição dos seus genitores diante de si.
E eu, já pensando no meu...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Por que nunca escrevi "fuder o cu do gato"

  1. Adoro a palavra foder. Tá bem que, de vez em quando, alguém pode se enganar e trocar a grafia de uma palavra por outra. Escrever besteira, porcaria, zorra. Dar uma de néscio, beócio, recalcitrante do português. Mas não eu. Muito menos com uma palavra tão bela e semanticamente aprazível quanto foder! 
  2. Jamais utilizaria um artigo definido antecedendo o substantivo cu (ou cú, como acho que realmente escrevi em declarações anteriores - datadas do ano de 2007). Não sei se sou divinamente agraciado em saber disso mas o uso de artigo definido antes de nomes próprios reflete uma certa intimidade entre quem emite a mensagem e o objeto do qual se fala/escreve. Sendo "cu" um objeto tão íntimo, julgo-o quase um nome próprio. Portanto, não faria uso do "o" antes do cu - exceto se fosse um que eu já tivesse experimentado e feito isso com certa... digamos... competência sexual.
  3. Não há um terceiro motivo. Poderia repetir o segundo e renovar os meus vãos conhecimentos sobre a língua portuguesa mas prefiro interpelar para uma justificativa semântica da frase como um topo - quase uma apelação sentimental ou emotiva, que seja. 
A minha infeliz citação fazia referência a um texto do falecido Bukowski - tinha que ter alguma coisa com esse velho tarado. Foder cu de gato é o mesmo que fazer política. Não irei copiá-lo ou transcrevê-lo nessas singelas linhas que perfazem esse injustificável blog. Mas só digo que nada entendo de política. Assim sendo, Charles me convenceu facilmente com argumentos palpáveis de que política é mesmo uma arte dessas. Para mim, foi mais convincente que Platão em "A República". É isso. Chega de justificativas que não hão de ser aceitas, justificáveis ou ao menos lidas.
Adios.

terça-feira, 23 de março de 2010

Eis que já é noite

E a melancolia de sempre está, de volta, à tona. Não faz mal. O dia amanhece sempre mais claro, verde e receptivo - principalmente se chuvoso. Estive a ler - numa dessas horas de descontração anal - trechos de um livro de Sabino. Remontava às estórias escritas por Machado, que em muito me apetecem. Uma em especial: a tragédia Capituniana, que nunca li mas talvez saiba melhor que se, de fato, houvesse lido. O português às vezes (raramente, pra ser mais específico) é feio. Claro que não digo que não prefiro as portuguesas. Deve ser culpa da noite, com essa maresia que tem me trazido ultimamente.
Falava de um princípio de história de amor: uma loura, um funcionário, uma atração - UMA atração: unidirecional. O funcionário que, certamente, babara as certas coxas. Torneadas e pigmentadas daquele tom nauseabundo de pele leitoso. Com quadris e peitos impregnados em olhar tão humilde e subserviente: um funcionário de redação de jornal.
Nunca li muitas obras de Sabino - não quis escrever que não havia apreciado sua obra. Peguei uns livros por engano, trazendo-os entre os poucos que hão aqui comigo. São, em bem da verdade, antiga posse familiar: há em suas contra-capas rabiscos indicando o dono e a série do dono. Meu irmão, primeira série; minha irmã, segunda série; e vieram parar aqui, comigo, em Recife, pleno primeiro período do curso de computação. Quiçá façam a diferença na hora em que estou a realizar as minhas necessidades fisiológicas, como as julgam certos falantes.
Claro que sou adepto da obra machadiana. E ainda assim não digo que lí-la inteira. Mas cada palavra que li de Memórias Póstumas me ensinou uma lição. Lições importantes ao decorrer àquela época. Lições que hoje tenho por completo em esquecimento. Que me valeriam muito se ainda as soubesse hoje.
Trouxe na mala outras coisas sem sentido: roupas, cuecas, livros e um porta-retrato vazio. Vazio: sem retrato. Posso ainda substantivar de porta-retrato? Creio que sim, já que o texto é meu. Mas assim era que estava - sem nenhuma serventia e ainda assim bonito, ansioso por imagem de alguém. A ansiedade é um prato que se satisfaz já frio. Nos come e devora cada segundo de nossa vã impaciência.
Mas as memórias póstumas, não. Não as trouxe comigo, não.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Apartamento, violão e companhia

Lavar a louça até que é bom. A gente pensa um bocado quando se está lavando a louça. Mas não o bastante - acho que pensar nunca é uma tarefa suficientemente realizada. E ainda mais hoje com essa história de big brother: as pessoas estão pensando cada vez menos e vivendo cada vez mais a vida dos outros (outros que, 100 em 100, pensam bem menos que seus espectadores). Fico matutando com minhas bobinas... pode ser que futilidade, burrice e invalidez mental sejam requisitos básicos para entrar em uma casa de reality show como esse anteriormente - infelizmente - citado.
Geralmente nessas horas - quando começo a falar, ou pior, escrever tanta merda - começo a lembrar do Bukowski. Coitado, já não está mais aqui para se defender dos meus pensamentos. Ninguém nunca conseguirá enganar os outros como esse cara enganou. Ele foi um gênio. Maluf tentou, Collor tentou, Lula está tentando e Dilma pode até tentar. Mas será em vão: a arte de ludibriar as mentes alheias parece ser dom dos escritores... e esse tal de Bukowski então. Reli o início do parágrafo e quis reescrevê-lo: ainda bem que jaz morto morrido o dito findo, jazido e finado Charles. Não está mais aqui para ler essas baboseiras que escrevo sobre ele - e, vendo que o misturo entre os nossos queridos políticos no mesmo parágrafo, bem capaz de querer uma retaliação através das letras.
O que será que escreveria? Me identifiquei uma vez com um trecho de seu texto em que dizia mais ou menos o seguinte: "esses escritores são uns caras realmente perigosos. Principalmente os que escrevem sobre paz e amor." Hahahaha. Genial, não é? Não que eu seja um pacifista mas o amor, meu caro, não me sai da ponta do dedo um só instante.
Sim, comecei uma frase com um pronome oblíquo: sou universitário e já me dou a certos luxos. É mesmo: da última vez que postei algo nesse blog, ainda não tinha... argh! Já faz tão tempo que não o atualizo. Já fiz tantas coisas desde então, já deixei de fazer milhares de outras. Mas deixo para escrever das coisas que não faço, pois parecem bem mais interessantes - quiçá uma maneira de me auto-realizar. Escrever também sobre a vida nova, que está cada dia ficando mais velha, deixando a barba crescer e talvez também os pentelhos e falar sobre o amor que é de praxe e atender ao título do blog e mencionar sempre o velho Buk e tentar respeitá-lo um pouco mais em sua cova e cometer pleonasmo e fazer isso quase de uma maneira redundante e a ponto de quase me tornar um criminoso. É isso só.