Antes que alguém pergunte, eu vou acabar com esta infelicidade: sim! Tudo o que está escrito aqui é verdade. Eu sou mesmo um grande estraga desprazeres. Fico assaz contente por isto. Ainda mais em se tratando dos meus infortúnios. E, não pela primeira vez, serão postadas aqui mais algumas pieguices consuetudinárias. Palavras difíceis, reminiscentes dos ébrios e velhos tempos deste infeliz blog. E antes que alguém queira me indagar disto também, vou logo avisando. Não fique aí pensando que eu sou um idiota escrevendo palavras difíceis com um dicionário a tiracolo sem saber quais são suas intenções. Saiba: eu sou um idiota escrevendo palavras difíceis com um dicionário a tiracolo sem saber quais são as intenções delas. Também não sei quais são as suas, nem as minhas. Eu não sei de porra nenhuma.
O sucedido é que estava eu, em uma noite de sábado, muito sedento, sóbrio e solitário. Não por muito tempo. Sabia o que fazer. Muni-me do meu saca-rolhas e me atirei porta afora, com destino à parada de ônibus na Caxangá mais próxima - que estivesse parada. E é que estava mesmo. As ruas muito obscuras. Estranhei todo aquele mar de mansidão que envolveu a Cidade Universitária do Recife em pleno sábado à noite. Esperava barulho, balbúrdia, celeuma, burburinho e garotas de quase dezoito de minissaias e dispostas a seguir viagem no mesmo ônibus que eu pegasse - não importando qual seria esse. Não tinha nada disso. Mal havia luz na parada. Sorte que não houve espera também. Mal chegara na estação de embarque/desembarque quando vi aquelas inconfundíveis lanternas brilhantes me apontando. Esperei até conseguir enxergar a placa. Boa Viagem. Ergui o braço e vieram os gritos:
- Passa, passa!
- Já foi! Já vai!
- É o dele!
Assustei-me (hipérbole, claro). Eram uns motoqueiros que passavam do outro lado da avenida. Ainda bem que trouxe meu saca-rolhas, pensei.
Eu não tinha destino. Só estava à procura de vinho, charuto e boceta. Como sempre. Sempre sem destino, sempre à procura. Desci em uma parte da cidade onde nunca estivera antes. Era agitada. Alguns bares/restaurantes grandes. Poucas perguntas e vários passos depois, estava eu de volta à parada onde tinha desembarcado, com meu vinho e meu charuto a postos. E aquele sentimento de que ainda faltava algo. Vi Léo Jaime passar com uma latinha de cerveja na mão, falando ao celular. Um louco trajando apenas uma cueca boxer vermelha desceu de um ônibus. Era louco mesmo, eu acho. Está aí um caso excepcional em que acho justo usar de generalizações: ou todos são loucos, ou não. Léo Jaime veio para perto de mim, esperar algum ônibus. Talvez fosse meu fã. Tinha o celular ainda junto à orelha, mas nada de latinha de cerveja. O louco cuspiu perto de onde estávamos, vagueava de um lado a outro. Não lhe meti a mão por que eu estava vestindo cueca vermelha também. E não era boxer. O diabo do coletivo estava demorando.
Em meio às pessoas que estavam ali, havia um casal que me chamou atenção. Chegou de mansinho, quando eu já esperava há algum tempo. A mulher, mais próxima de mim, pareceu andar alguns milímetros em minha direção, de costas, propositadamente. Não sei se queria um ménage, só uns cornos imaginários na cabeça do namorado, dinheiro ou só sexo - que era o que eu queria também. As mulheres estão sempre querendo alguma coisa nesse sentido. O rapaz parecia bastante jovem. Ela tinha cara de quarentona fogosa e de feições ainda bem amenas. Comível, digamos assim. Usava uma saia jeans curta e uma tomara-que-caia rosa. Não era dessas que causam suspiros por onde passam mas, baixinha, certamente não deixava a desejar na cama. Aliás, acho que mulher nunca deixa a desejar na cama. Homem é que deixa. Bem, não sei. Nunca comi um. Também não estava vestida feito uma puta ou com charme e elegância suficientemente excitantes. Mas aquelas poucas peças de roupas, que deixavam à mostra uma porção de pele que ia desde a metade inferior do umbigo até o finalzinho da barriga, me fizeram querer descobrir todo o resto. Era de uma beleza desgastada e vadia que ainda guardava uma pontinha de nada de puerilidade. Nem que fosse no cantinho do olho, como se costuma dizer. Do olho do rosto.
O coletivo havia chegado e o casal subira logo antes de mim - sentou-se ao fundo, enquanto eu me reservei quase ao lado do cobrador. Por coincidência, pegaram o mesmo ônibus. Coincidência, é claro. Essa coincidência sadia e feliz que faz os homens nascerem com pinto e as mulheres com xana. E com clítoris, o que deixa as meninas com inveja dos meninos. E as mulheres tão deliciosas. Freud explica tudo. E, àquela altura da noite, eu buscava explicações. Encontrei uma. Subiu radiante por aqueles degraus sujos e indignos. Tinha cabelos dourados e olhos muito azuis. Da cor das águas mais azuis que existirem nesta Terra. De um jeito que eu nunca tinha visto. Vestia uma tomara que caia (esta sem hífens, tomara que caísse mesmo, só pra mim) verde-veludo e uma calça jeans. Era normalista. Não sei de onde tirei isto, mas era. Qualquer maníaco sexual poderia ter notado. Passou sem pestanejar para o fundo do ônibus. Perdi-me por alguns minutos em meus pensamentos. Talvez demorados minutos. Pensei nas ruas, nos perigos, nas explicações, nas músicas, no cobrador, no charuto. E mais em uma torrente de ideias sem sentido que uma mulher atraente provoca à cabeça de um homem.
Quando voltei ao meu estado de insana consciência, era tarde. Olhei para trás mas não vi a loura. Vi a outra. A mulher do outro que, aliás, não estava mais no ônibus. Talvez não fossem namorados. Aparentemente, estava dormindo, com a cabeça recostada no ferro da cadeira e a boca aberta. Babava, talvez. As pernas estavam desleixadas, contidas apenas pelo aperto da saia. Quase dava para enxergar sua calcinha. Não deu. Enxerguei apenas Léo Jaime, que estava sentado na cadeira à janela oposta à que eu estava. Talvez não fosse Léo Jaime.
Vi quando a mulher solicitou a parada, uma antes de onde eu desceria. Resolvi descer junto. Já tinha vinho e charuto. Um saca-rolhas, caso ela me resolvesse assediar. E meu pau, caso contrário. Desnecessário dizer que ela havia me visto e que já tinha tudo isto em mente, arquitetado maquiavelicamente em seus planos de mulher. Apenas dei sorte de estar neles. Tudo o que ocorreu depois estava marcado: tinha descido duas paradas depois da sua, sob o pretexto de estar adormecida, conversamos enquanto caminhávamos até o seu prédio, um velho e pequeno condomínio residencial, subimos dois lances de degraus escorregadios até parar em frente àquela porta vermelha com um número 13 dourado. Bebemos vinho, fumamos charuto, tiramos a roupa e contestamos Freud - tudo de acordo com os passos que ela nos tinha trilhado. Els apenas não esperava que, depois de tê-la levado ao paraíso, a enviasse agora para o inferno - com as mesmas língua e boca.
- Você conhece o inferno?
- É o quê?
- O inferno é um lugar aterrador. Onde não se enxerga coisa alguma. Só se sente o cheiro de enxofre misturado a ácido sulfídrico e o ardor eterno das mais torturantes queimaduras que se podem causar à alma de um condenado. Piores que em carne viva. Escutam-se infindos murmúrios, lástimas e ranger de dentes. Da dor que emana da hoste de desgraçados que não podem ser vistos mas têm sua presença notada da pior maneira possível. Suas súplicas por perdão e misericórdia divinos - quais jamais serão atendidas - ressoam através do fogo do inferno. Fogo que, às vezes, parece mais brando e quase insensível. E logo volta a castigar mais veementemente, feito um carrasco que cansa de cortar cabeças. Mas as continua cortando.
- Você é crente?
- Vamos acertar algo. Se eu acordar sem os rins, você vai para o inferno. Não importa quando.
Estava com medo. O medo matou os índios. O medo entregou o mundo nas mãos dos burgueses. O medo faz coisas terríveis. Até a gente perder uma boa companheira de foda.