quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Estética do Cotidiano

A maioria das pessoas, atualmente, vive apenas de aparência. Eis o motivo de se precisar tanto de psicólogos, remédios pra dormir e livros de auto-ajuda. Não é chato sustentar relacionamentos, admiração alheia e o próprio bolso através de superficialidades tais quais a beleza, o dinheiro ou uma prolixidade erudita dos infernos. Mas tem seu preço.
O mundo (ou a maior parte dele) é, hoje, um lugar triste como é por que as pessoas perderam a capacidade de se contentar com a beleza simples, o prazer bucólico e outras coisas - que são as que realmente importam. Genericamente, só agrada aquilo que é muito bonito, muito caro ou muito complexo - preferencialmente, as três coisas juntas. Tá aí. Revelado o grande mistério de sua desgraçada infelicidade.
Você tem as pernas, os braços e a cabeça no lugar (anatomicamente falando) - só não pensa nem faz nada de útil a não ser se lamentar por não ser uma pessoa rica, bonita e amada pelo galã da novela das... oito? Nove? Sei lá. A que você mais gostar. Isso tudo nos revela muito mais: é por isso que a cobradora de ônibus é uma mazelada que merece ir para o inferno (junto com o motorista), a garçonete - apesar de gostosa - é uma filha da puta arrogante e sisuda que merece ir para o inferno e o taxista miserável e salafrário é um desgraçado que merece ir para o inferno. Parei com relatar os condenados ao inferno - Deus que se vire com isso.
Às pessoas que inspiraram o parágrafo anterior: espero que o inferno exista mesmo. Vocês vão todas pra lá! Para o INFERNO! Acho que ainda não vai ser muito. Bem que vocês não merecem nem o traquinar dos neurônios a imaginar um tormento pior que o inferno - digno de suas sentenças.
São raras as pessoas que dão o troco sorrindo, dão bom dia de bom grado e esperam, cedem o lugar, têm paciência, balançam a bundinha com felicidade, sorriem por pura falta do quê fazer. Sorrir é legal. São essas as pessoas responsáveis pela parte do mundo que ainda não é triste, mal cheirosa e completamente banal. Digo, a infelicidade é banal, machucar os outros é banal, ser o melhor do mundo em dar foras / cortadas é banal pra caralho. PRA CARALHO.
Tudo bem. Não guardo rancor, nem ódio, nem desânimo. Esses são sentimentos muito ruins. Não é que eu seja bonzinho, não. É por puro egoísmo mesmo - pra não fazer mal a mim. Também por que eu ou você ou as igrejas ou as estudantes malucas de sociologia podemos querer justificar as mazelas alheias: falta de dinheiro, falta de amor, falta de carinho, falta de pênis, falta de sexo, falta de família. Sendo assim, que razão eu tenho pra mandar todos esses condenados pro inferno? Eu sou um filho da puta gordo e barbudo que estuda o que quer estudar na melhor universidade do estado, come comida da boa, enche a cara de vez em quando e ainda fica maldizendo a infelicidade alheia na Internet.
Tudo bem: não guardo rancor, nem ódio, nem desânimo. Mas isso não altera o fato de que vão pro inferno. Vão pro inferno. E se você for infeliz, vá pro inferno você também. Vai pro inferno.

domingo, 11 de setembro de 2011

Diálogos Humanóides

- Boa noite.
- Boa noite! Tudo bem?
- Tudo. Você está com bafo de bêbado.
- Eu sou um bêbado.
- Você não parece um bêbado.
- Você acabou de dizer que eu tenho bafo de bêbado.
- Eu não disse que você tem bafo de bêbado.
- E o que você disse?
- Eu disse que você ESTÁ com bafo de bêbado.
- Mas talvez isto seja por que eu TENHO bafo de bêbado.
- Talvez, apenas. Momentaneamente. Você parece um cara legal.
- Você tá falando sério? Mesmo com essa barba?
- Sério. Mesmo com essa barba, com esses músculos, com esse jeito.
- Que jeito? Jeito de bêbado? Você quer dizer jeito de bêbado!
- Não. Esse jeito. O jeito de quando você está sóbrio.
- Ah, então tá. É difícil mesmo ser legal quando eu estou sóbrio.
- Você é mais legal quando está bêbado do que quando está sóbrio?
- Sou, sim. Com exceção do bafo de bêbado. Quer experimentar?
- Como assim experimentar? O que você quer dizer com experimentar?
- Ué, assim, experimentar. Subir lá no meu quarto e me deixar meter entre suas pernas.
- Você não está só com bafo de bêbado. Você está mesmo bêbado.
- Mas isto é mais legal de que quando estou sóbrio, não é?
- É.
- ...
- ...
- Então vai lá. Tira a roupa e vai lá.
- ...
- Pode ir de roupa, se quiser, também.
- ...
- Deixa que eu tiro sua roupa.
- ...
- Bem, boa noite.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Talk Show

Foi em uma das minhas idas e vindas entre Recife e Petrolina. Sentia um frio miserável: não estava preparado para aquela tormenta - trajava apenas uma bermuda e um camiseta. Por sorte, havia um jaquetão em minha bolsa que, logo após o primeiro calafrio nervoso, peguei e vesti. Não adiantou muito. Os músculos começaram a se debater como se quisessem saltar fora àquele corpo completamente gélido e quase sem esperanças de encontrar uma gostosa que me visse sentar ao lado - ou no colo, quiçá.
Aquele combate pavoroso contra o frio pela sobrevivência continuou por longos minutos até que o ônibus parou. "Minha salvação", pensei. Mas estava enganado. Como muitas vezes me enganei por essas estradas. Era só mais uma vez. O local da parada era Arcoverde - um cidade tremendamente fria, pelo menos àquela madrugada de meio de ano.
Desci e a tremedeira, que pareceu amainar-se por conta dos movimentos rápidos e descompassados, voltou duas vezes pior quando parei e pensei no que fazer. Meu cérebro estava lento - o que era bastante compreensível àquela temperatura. Decidi ir primeiro ao banheiro. As musculaturas de meu corpo continuavam desobedientes mas eu quase que não as sentia mais. Apenas percebia a flutuação estranha e desordenada da roupa, que parecia dançar um balé esquizofrênico. Que diabos! Será que os outros percebiam também? Não gostaria - jamais - de demonstrar fraqueza, frio, tremeliques muito menos.
No banheiro, enquanto mijava, percebi uma rã grudada na parede, perto do vaso sanitário. Por um momento, abalou-me a impressão de que ela a qualquer momento saltaria e grudaria em meu pênis, do mesmo jeito com que se agarrava à parede. Idiotice minha, claro. Aquela rã não era tão estúpida quanto eu. Bem que, àquela temperatura, talvez a parede fosse um lugar friamente inóspito. Pudera meu pau ser mais aconchegante. Não sei. Eu não o sentia.
Tentei lavar as mãos mas a água era como chama viva. Saí do banheiro e fui ao balcão fazer um pedido. Na televisão, um talk show desses impertinentes. O entrevistado parecia alguém muito comum - vestido com uma calça social e uma camisa um tanto menos social que a calça, mas ainda sob os moldes de formalidades aparentemente requisitados. Pedi um pastel e um suco. Não sei por que cargas d'água pedi um suco. Estava tremendo de frio, quase morto. Precisava de um café ou de uma boceta. Precisava de algo quente. Mas pedi um pastel e um suco - meu cérebro, definitivamente, não estava funcionando adequadamente. O salgado estava mais frio que o suco. Sentei e comi e bebi indiferentemente a tudo - ao frio, inclusive - e a todos - a um velho que parecia perceber minha tremedeira, inclusive.
Ninguém seria capaz de falar nada. Os humanos são assim, frios mesmo quando faz calor. Tenho a impressão de que poderia cair duro (e gelado) ali no meio da lanchonete que todos continuariam suas vidas medíocres como se nada tivesse acontecido. Jazeria, eu, ali, decrépito e sem vida, o ônibus soaria sua buzina apressada, os passageiros entrariam cabisbaixos e tudo voltaria ao normal - se é que tivesse em algum segundo abando a normalidade. Minto: talvez me enterrariam - os nativos, arcoverdenses, claro. Nunca os passageiros. Passageiros estão sempre muito ocupados passando. Não têm tempo nem de dar uma no ônibus.
- Em que você buscou inspiração para escrever esse livro que está lançando pela Editora Quem Lê Vai Para o Inferno?
- Nas coisas de sempre. Na vida e no mundo. Em tudo que há de bom e tudo que há de ruim. E como é engraçado o jeito como as coisas boas coexistem com tantas coisas ruins. Basicamente, o texto do livro trata disso mesmo: notar a mais pura e sutil beleza em tudo em que aparentemente só existem promiscuidade, maldade e feiúra. Por outro lado, ver como são corruptos e desprezíveis alguns aspectos da vida e do mundo em que aparentemente reinam a alegria, o amor e a paz.
- Essa ideia central do livro, se é que eu posso revelar, de o sujeito estar preso em um único dia da semana é algo que eu achei fantástico.
- Não é a ideia central do livro. Você leu? Leu o livro? Não é a ideia central do livro. É apenas um artifício para demonstrar o que era necessário. Além disso, há, no começo, uma parte da estória em que o personagem vive n'um sábado também. De início, isso só ocorreu por que eu não fazia a menor ideia do que é que estava escrevendo mas, depois, acabei gostando de como tudo ficou. Ou gostando mais ou menos. Sabe, há algo de lindo e paternal nisso também: meu pai se chama Domingos. Daí, talvez, a ideia de fazer o personagem viver apenas os domingos. Se bem que não. Trata-se apenas de uma coincidência feliz. Mas tem sempre gente por aí achando que se você faz, pensa ou escreve alguma coisa é por que você viveu determinadas situações na infância ou por que você é virgem ou depravado demais ou por que é louco ou por que é um palerma. Principalmente psicólogos, psiquiatras e gente dessa laia. Tudo bem, eles precisam ganhar o seu pão.
- Hahahahaha. Você é assim o tempo todo? Espontâneo e cheio de ideias? Quero dizer, seu livro é cheio de ideias dessas também mas não é uma autobiografia, certo? Essas ideias fazem mesmo parte de sua vida, do seu dia a dia? Você é assim corriqueiramente?
- De jeito nenhum, só quando tenho alguma exposição ou visibilidade. Preciso ganhar o meu pão, também, n'é? Por falar nisso, quem tiver vontade de ler o livro e não quiser comprá-lo, basta fazer o download na Internet. Eu mesmo disponibilizei o livro em vários fóruns de pirataria e nesses sites de depósito de arquivos, apesar de ele ainda não fazer parte do domínio público.
- Você é o primeiro escritor que vem aqui e faz questão de enfatizar que a pirataria pode ser realizada dessa maneira. Não acha que, assim, está desvalorizando o seu trabalho?
- Sabe, cara, a Internet é algo esplêndido. É quase tão esplêndido quanto uma bunda de mulher, sabe? É algo aterrador e comovente. Quando tudo isso - computadores, Internet e essa tecnologia toda - surgiu, eu já era meio velho e meio antiquado. Mas agora me dou conta de que a Internet é como um rio gigantesco, largo, extenso e profundo que flui sem querer saber se você está jogando esgotos nele, está se banhando em suas águas, mijando nelas ou fodendo dentro dele. Ele só está ali, fluindo e fluindo. A Internet é do mesmo jeito, sabe? Um rio pode ser a fonte de sobrevivência de milhares de famílias do mesmo jeito que pode matar muita gente. Mas eu posso salientar uma coisa: se alguém ler o livro e gostar - ou achar que gostou - e quiser ver outro livro meu publicado - e disponível na Internet também - aconselho que compre ou talvez eu não sobreviva por tempo o suficiente para encontrar outra editora como a Quem Lê Vai Para o Inferno. Aproveito para agradecer ao pessoal da Quem Lê Vai Para o Inferno. Eles são uma bênção divina.
- Tudo bem, mas eu insisto: você não acha que as ideias do livro já são demasiadamente permissivas e libertinas? Isto é, ainda tem que professar essas ideias anti-capitalistas e subversivas?
- Pensei que estivesse conversando com um apresentador de talk show e não com um crítico literário. Sabe, cara, críticos são potencialmente pessoas frustradas. Você, que é um homem do teatro, deve saber que, via de regra, críticos de teatro são atores frustrados. Cuidado por que, se a mesma regra vale para a literatura, você está se declarando um escritor frustrado ao me criticar desse jeito.
- Mas agora não é você quem está me criticando?
- Eu não posso criticá-lo. Nunca li algo do que você escreveu.
"A plateia não vai gostar desse entrevistado", pensei. Estava sempre repleta de dondocas universitárias cheias de frescuras e não-me-toque. Não mesmo. Não era uma plateia dotada desse senso humorístico que transcendesse os vieses artísticos daquele apresentador, que era idolatrado como quase o próprio Deus. Não mesmo. "Estará fadado à morte junto com todos os seus elogios tecnológicos".
O motorista fez soar a buzina do ônibus. Quase tão insuportável quanto o motorista, os passageiros, os atendentes e todos os outros humanos. Quase tão insuportável quanto o frio. Subi cabisbaixo. Nem notei se alguém havia morrido ou coisa parecida. Talvez sim, talvez não. Tanto faz. Estava ocupado demais passando por aquela cidade fria.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dislexia

No sistema capitalista de fodelância desigualitária, a honestidade é uma virtude concedida apenas àqueles que não dispõem de dinheiro ou meios suficientes para se corromper. Essa primeira frase não é nada. Apenas algo que eu tinha em mente desde ontem à noite e precisava registrar em algum lugar, antes que isso fodesse de vez com minha mente.
Sabe, cara, eu amo meu texto. E, de uma maneira ou de outra, eu tenho que buscar um meio de lhe agradar. Não importa o que tenha de fazer: passar a noite em claro, foder mil bocetas, insurgir-me contra o capitalismo - o que quer que seja.
Acontece que eu não sou um exemplo a se seguir. E muitas pessoas - mesmo! - não seguem meu bom senso literário. Elas simplesmente não têm piedade de suas letras descompassadas e imundas que tracejam seus sentimentos mais vãos e inertes - ou inanes (que é a mesma coisa que vãos, que é a mesma coisa que inertes, que se dane). Consequentemente, ferem cruelmente a complacência de quem - teimosamente - insiste em ler alguma coisa - com a última e fugaz esperança de gozar um único "a" ou um último ponto final.
Não dá, cara, não dá. Essa última gotícula de esperança é tão inútil quanto qualquer outra. Os escritores de 140 caracteres nos decepcionam mais que nossos cachorros quando não obedecem a um comando de deitar ou sentar ou dar a pata ou morder o carteiro. É triste. Ainda estou deprimido com a perda (perda, filha da puta! PERDA) do meu último cachorro. Mas hoje reservei meus olhares (e os poupei) das ignomínias e perfídias das redes sociais formadoras de débeis mentais. Tô vivo.
Escuta só (ou leia, se preferir): o meu texto não precisa sentir o fedor da merda que caguei hoje à tarde. Não mesmo. Ele não quer saber se estou triste ou se empolgado com a próxima noite, o próximo dia, a nova amizade. Para o inferno todas essas insignificâncias. O meu texto quer sexo, quer prazer, quer ver as vulvas por debaixo de todas as saias do mundo, quer debochar da tristeza mais banal e insignificante, quer se prostituir nos cabarés mais longínquos e quer dar um pé na bunda mais gostosa que houver neste bundo.
Tudo bem que você erre pra caralho e as garotas teimosas errem pra caralho e que todo mundo erre pra caralho na hora da grafia que não precisa ser nem formal nem completamente coerente nem carece de vírgulas nem de pontos nem de acentuação gráfica nem de professores de português frustrados por não conseguir ser barman ou gigolô nem de professoras frustradas por não conseguirem vender algo além do seu conhecimento patético sobre as regras gramaticais e por virem de uma família humilde e honesta de prostitutas gostosas isto tudo por que eu erro pra caralho também e tenho consciência de meus erros até aqui pode ficar muito certo disso seu crítico cretino mas... PORRA!
Você poderia ter um pouquinho de piedade do seu texto. Pensar nele só um pouco. Ver o pinto do seu namorado, duro, enquanto tenta pensar em algo pra escrever. Sabe? Deslizar esses dedinhos digitadores epilépticos por entre os grandes lábios e arranjar um pouco de inspiração. Desenrolar uma ideia que talvez possa melhorar o mundo ou até mesmo salvá-lo do abandono, do descaso e da crueldade humana. Piscar o seu buraquinho que jaz escondido por entre as suas nádegas e tentar transmitir a sensação através de palavras não é necessariamente uma boa ideia. Mas é melhor - muito melhor! - do que essa porra toda que você tem feito durante toda a sua vida, desde que se alfabetizou, até agora.
Maldição. Peguei um negócio de meter umas exclamações no meio de uns hífenes. Há, moleque! O plural de hífen é hífenes. Sabia dessa? Eu não sabia. Pois é. Talvez isso sirva de alguma coisa, se você não entendeu nada até esta parte do texto - a não ser meus palavrões e minha vontade incontestável de te enrabar.
Algo que me tem incentivado a escrever é a desmotivação. Tenho procurado escrever muito em tudo que tenho escrito - tirando os trabalhos escolares, claro. Muito! Tanto ao ponto de desmotivar qualquer um que ouse ler algo que eu escreva. Não que isso torne meus textos mais completos, complexos ou algo diferente da mesma merda de sempre. Mas uma coisa é certa e garantida por essa prolixidade: se você leu tudo - tudinho, baby - e conseguiu descobrir o SEGREDO por entre essas palavras disléxicas, meus parabéns. Pode se considerar menos são que muita dessa gente que vive contaminando o nosso universo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Estivação III

Todo o mundo supervaloriza demais a porra do amor. Culpa das novelas. Não só delas, mas delas também. Todo o mundo preocupado demais em se safar da tristeza, do ódio e do rancor de uma vida sem amor. Qual é! Não deveria ter começado assim, mas já comecei. O rascunho é salvo automaticamente e dá um trabalho dos infernos ir nas postagens e apagar os rascunhos. Então, como quase dá no mesmo mesmo, deixa assim mesmo.
Acontece quase a mesma coisa com o sexo - que é uma coisa completamente diferente. Os homens agem como se fizessem tudo por uma boceta e as mulheres agem como se os homens agissem como se fizessem tudo por uma boceta. Qual é! É assim mesmo? É assim mesmo. No fundo, no fundo. No fundo das pieguices, dos sistemas financeiros, das universidades e das organizações empresariais. No fundo das cuecas e das saias, das cabeças - desde a mais pura e ingênua à mais pervertida e ninfomaníaca.
Você quer descobrir o que é o amor, né? Está procurando no lugar errado. Pois bem, vou lhe dizer o que é o amor. O amor é um cão dos infernos. O amor é como a névoa matinal que turva a nossa visão e depois se desfaz em pouco tempo. E é, também, um mecanismo biológico de atração para o fim - pura e simplesmente - da persistência da espécie humana.
Felizes são os animais irracionais - que não têm de escrever poesias, cantarolar versos esnobes e ganhar milhões. Felizes eram os homens das cavernas - que só precisavam de uma ereção. Isso - sim! -, isso é amor.
Mas, não, que é isso! O amor tem que ser complexo demais que não caiba na mente de um coitado e o faça sofrer até que se jogue do décimo terceiro andar de um prédio qualquer - que não foi erguido com o intuito do suicídio, diga-se de passagem. O amor tem que ser esse lance, essa química, essa troca de nada com nada que não tem resultado e dá em qualquer um, do nada.
Maldita novela. Maldita arte que faz sentir até aqueles que não têm cocô de galinha nenhum na cabeça. Tá aí: pensei que estivesse digitando um texto completamente negativo e despropositado. Chego, então, num parágrafo que traz uma ideia muito frutífera e feliz - embora continue completamente despropositada. Talvez o amor ocupe bem a mente - ou o coração, a boceta, o rabo ou sei lá o quê - de quem não tem nenhum senso nem qualquer instinto da beleza nua e crua que é a vida.
Tinha mais algumas palavras pra descomer aqui, no meio dessas tantas outras, mas preferi acabar este texto no parágrafo anterior mesmo. E não vou mais continuar com essa porcaria de estivação - que eu não sei nem o que é isso. É, olhei o que era. Desde antes do primeiro texto. Mas tem coisas que a gente não entende a não ser que se queira deixar de teimosia. E eu não quero. Sabe como é.

Estivação II

Algumas pessoas me perguntam o que foi que aconteceu que minha barba está deste tamanho. Oras! Ter vivido a puberdade não é motivo suficiente pra fazer crescerem os pelos? Jesus passou por isso, Tiradentes também, papai Noel também - e mais um monte de gente que alguns duvidam que existiram. É uma pergunta boba, de fato. Mas a intenção é inquietar mesmo. Quando não aterrar.
Às vezes eu vejo uns caras feios por aí - feios mesmo - e penso: "porra. O cara é feio mesmo sem barba. Um coitado". Talvez ele sinta pena de mim também. Espero que sim. Isso me faria sentir menos culpado.
Algumas pessoas não entendem por que eu detesto gatos. Ouvi dizer que gatos são capazes de reproduzir até mil sons diferentes - ou uma quantia dessas - enquanto que os cachorros só são capazes de uns 10. Pra mim, isso não justifica a desconfiança para com os gatos mas sim uma exacerbada superioridade mental dos felinos. Nunca ouvi um gato emitir outro som além de miau ou grrr ou alguns gritos pavorosos. O lance é que esses bichos são traiçoeiros mesmo. Um cachorro pode, aparentemente sem motivação alguma, arrancar seu pescoço ou lhe deixar uma bela marca nas canelas. Mas um gato pode te enrabar assim que você virar as costas, depois de ter passado 2 horas e meia afagando sua cabeça enquanto ele balançava aquele rabinho fingido e escroto. É só esperar.
Gatos são desonestos e cruéis. Inclino-me a achá-los piores até que os próprios humanos.
Às vezes, muito frequentemente, tenho ideias geniais - mesmo! Demais. Pena que elas não durem tempo suficiente pra deixar de ser ideias. Isto é, deixar de ser ideias e se transformar em algo mais consistente, menos volátil. Deixam do pensamento pro... pras cucuias, pro beleléu. Eu poderia utilizá-las pra iniciar vários textos. Textos de verdade, não uma merda feito esta. Pra ficar rico. Pra conquistar as mulheres. Mas, pensando bem, que se dane. É bom que essas ideias virem poeira cósmica mesmo. Ou qualquer outra coisa que eu também não saiba definir.
Já disseram que todo homem nasce um gênio e morre um imbecil. Pois bem. Não vou contrariar algo tão sensato. Como as sabedorias milenares, os dizeres populares, os apócrifos mais bem arquitetados e reconhecidos - que poderiam ter sido criados por imbecis como eu ou como você. Como você, como sua mãe, como sua irmã, como a freira das escolas de freiras, como todo mundo. Nem precisa ser cristão.
Às vezes me dou conta de que todos os humanos são um bando de idiotas - talvez seja uma das minhas ideias geniais. Leia de novo: todos os humanos são um bando de idiotas. Isto me inclui tanto quanto você, sua mãe, sua irmã e todo o mais tipo de gente que existir. E essas pessoas estão por aí dando aulas, apagando incêndios, operando nas bolsas de valores e se prostituindo. Estão criando as leis, ganhando dinheiro, brincando de sistema político ou econômico e escrevendo porcarias em seus blogs por aí afora - recebendo muito mais visitantes, dinheiro, prestígio e bocetas que eu, aliás.
Sacou? Idiotas. Todos. E aí? Tanto faz, não é mesmo? Tanto faz. Tanto fez como tanto faz.

Estivação

Estive pensando em sexo. O que é algo muito comum e corriqueiro. Mas não do jeito libidinoso de sempre e sim com uma perspectiva mais solidária. Estive pensando em opressão - ou repressão. Do próprio direito de existir. Do direito de existir dos outros. O que inclui, claramente, a propriedade da exequibilidade do sexo. Estive pensando nos casais daqui, da casa onde moro. Transando sem poder fazer barulho.
Do mesmo jeito quando eu toco meu violão. Não podemos fazer aquele amor ruidoso - geralmente muito melhor e mais aprazível que o silencioso. Temos que ir devagarinho, a baixo volume, quase calados. A cama, então, nem um único pio! Que se não podemos acordar as paredes, os móveis e as almas que vagam por aí tristonhas - sem querer saber de gemido algum.
Estive pensando que somos todos um bando de filhos de puta. Mas não da mesma puta. Não digo isso de um ponto de vista religioso, não. Somos filhos da puta demais pra ajudar uns aos outros. O negócio é que sempre estamos precisando de ajuda. Mas não nos ajudamos.
Meu cachorro vai pra carrocinha. Mas não é por querer, não. Talvez seja por conta do meu parágrafo anterior. Morto, incinerado, sabão. Não importa muito. Foi o melhor cachorro que já tive. Vai-se assim, desse jeito triste, sem saber o porquê. Sem jamais me ver de novo. Talvez nem lembre, nem se importe. Talvez até goste de não mais existir. Eu me importo.
O mundo é triste e a vida é uma merda sem sentido. Cagada pelos deuses ou por qualquer cagalhão explosivo, que se dane. Continua sem sentido. Não há um intelectual mais fodido do mundo que seja capaz de dar um sentido à vida. Não há um religioso dono da fé mais fodida do mundo que seja capaz de dar um sentido à vida. A fé, a ciência, a razão, a ignorância. Vivem brigando. Que diabos de diferença isto faz? Somos todos um bando de filhos da puta que não enxerga além de nossas próprias vontades, desejos e interesses mesmo. Que se danem o mundo e a vida.
Andar demais, correr demais, trepar demais. É tudo demais ou de menos.