domingo, 20 de maio de 2012

Não Há de Se Chamar Saudades

Moro no topo de uma montanha - que não remete a gelo, neve ou qualquer frivolidade. Pelo contrário, é quente, úmida e arenosa tal qual os melhores momentos da vida. Não há perigo, apesar de toda a altura. À tardinha eu me envaideço da beleza da paisagem: a vista é maior que o próprio firmamento e a sensação de estar sobre todo o planeta me deixa assim, meio palavroso.
Meu nome é o que menos importa nesta estória. Me chamam o azul do céu, o verde do mar, a gaitada dos passarinhos mais galhofeiros; me chamam os bichos da floresta, lá de baixinho, os humanos que moram desajeitadamente aquém do meu recinto, os prédios mais suntuosos que se curvam a um distante sem fim, à impetuosidade da minha montanha; me chamam a força da natureza, o conhecimento de todo desconhecido e o sentimento das dores mais belas.
Esta prosa não é de todo alegria, queira disso ficar ciente. A montanha, outrora tão imponente, agora está sob risco de desabamento. Perigam desmoronar a solidez, a paz, a benevolência desse deus - ou de qualquer outro - que me colocou no topo de uma montanha que, como qualquer uma outra, se rende aos infortúnios do tempo e se desfaz peremptoriamente - do mesmo jeito que as outras montanhas menores que eu vislumbrava com tamanha superioridade, do mesmo jeito das menores colinas que jazem sobre os vales, do mesmo jeito que os irrisórios homenzinhos que se apressam ao longe de toda minha, agora abalada, inabalável convicção de perfeição.
Desço, visto que não há outro jeito. Vejo os pássaros - seus assobios ficando distantes; as árvores - aumentando e diminuindo ao longo da caminhada; os bichos que antes não conhecia - alguns fujo, alguns mato, alguns corro; o teto celestial - me desabrigando mais e mais.
Estou, então, entre os homens. Na selva de pedras dos arranha-céus, das máquinas mortíferas de ferro endiabrado, dos colóquios, das prostitutas, das conversões de gênero e de caráteres. Atiro minhas pedras, corro os meus metais, prolifero meus verbos, atiço minhas putas e converto minhas desonras.
Mas a montanha não desmorona. A montanha, lá no longe, muito longínquo e sossegado, permanece em sua grandeza - a despeito da minusculização de mim. Nos infortúnios, nos desesperos e nos momentos de aparente êxito, miro o alto, o distante, o quase infinito. Não vejo o céu, não ouço os pássaros, não cheiro as colinas: há apenas a montanha - majestosa e colossal tal qual nunca me passou sob os pés.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Julgar Pelas Aparências

Desde há muito tenho tido esta impressão, caros ledores: trata-se diferentemente aqueles cuja aparência desperta uma expectativa qualquer nos seres que hão ali d'outro lado da retina. Não digo tal cousa somente por conta dos meus períodos mais ermos em que, barbado e c'os cabelos aquecendo as costas, sentia tal impressão apunhalando o inerte cerebelo. Tampouco o relato devido aos tempos em que estive (ou estou) imberbe, bem penteado e mais um punhado de características - a mim tão dissemelhantes.
O que vem a corroborar a minha tese - que também é motivo da proliferação destas letras - são as ideias que a tempos tenho roubado - e continuo roubando - d'outros seres que, muito mais inteligentes e aptos que eu, expõem-nas de maneira mais convincente que não entre contrações esdrúxulas, português idiossincrático e verborragias obsoletas. Trata-se de ideias expostas em papel e reforçadas por minuciosas - e numerosas! - referências acadêmicas, experimentos práticos, estatísticas comprobatórias e mais um bocado de blábláblá - em prolíficos capítulos.
A aparência de sucesso convence mais que o próprio sucesso. A aparência de riqueza convence mais que a própria riqueza. A aparência de beleza convence mais que a própria beleza. Obviamente, sucesso, riqueza e beleza são qualidades suficientemente subjetivas para levantar o questionamento de qual a diferença entre aparentar e ser. O negócio é que creio na sensatez do leitor - você sabe do que discorro.
Não é novidade que ninguém dá um centavo (figuradamente falando, por que, de maneira denotativa, é natural que até se dê dez ou cinquenta centavos - por pura "misericórdia") para o mendigo que passa despercebido diante das vistas ou que todos acreditem piamente na justiça divina quando um criminoso é capturado, condenado, encarcerado e enforcado dentro de um presídio.
Muito menos se questiona a sensatez de um vendedor quando ele opta por atender primeiro o cliente que aparentemente irá gastar mais dinheiro - mesmo quando esse chegou por último - ou de um espectador que prefere assistir às novelas do horário nobre da Globo em vez de conferir a nova novela de uma outra emissora - ainda que a recém estreada supere qualquer outra em entretenimento.
Há julgo pela aparência - o que não é de todo mau.
O maior problema de julgar - algo que todos fazemos ou pelo menos as pessoas que pensam fazem - é uma coisinha que tenho recentemente descoberto: o viés da confirmação. Quando achamos que alguma coisa é alguma coisa, procuramos indícios em todos os lugares existentes e inexistentes que alguma coisa é alguma coisa e tentamos veementemente descartar qualquer fator que indique que alguma coisa é outra coisa.
Outra coisinha que torna a preconceitualização mais grave é a influência. Quando nos deixamos influenciar pelas impressões alheias - sejam elas as primeiras ou as últimas -, tendemos a corroborá-las.
Então, o que parece bastante explícito e razoável é que se deve duvidar de tudo o que parece bastante explícito e razoável.