Moro no topo de uma montanha - que não remete a gelo, neve ou qualquer frivolidade. Pelo contrário, é quente, úmida e arenosa tal qual os melhores momentos da vida. Não há perigo, apesar de toda a altura. À tardinha eu me envaideço da beleza da paisagem: a vista é maior que o próprio firmamento e a sensação de estar sobre todo o planeta me deixa assim, meio palavroso.
Meu nome é o que menos importa nesta estória. Me chamam o azul do céu, o verde do mar, a gaitada dos passarinhos mais galhofeiros; me chamam os bichos da floresta, lá de baixinho, os humanos que moram desajeitadamente aquém do meu recinto, os prédios mais suntuosos que se curvam a um distante sem fim, à impetuosidade da minha montanha; me chamam a força da natureza, o conhecimento de todo desconhecido e o sentimento das dores mais belas.
Esta prosa não é de todo alegria, queira disso ficar ciente. A montanha, outrora tão imponente, agora está sob risco de desabamento. Perigam desmoronar a solidez, a paz, a benevolência desse deus - ou de qualquer outro - que me colocou no topo de uma montanha que, como qualquer uma outra, se rende aos infortúnios do tempo e se desfaz peremptoriamente - do mesmo jeito que as outras montanhas menores que eu vislumbrava com tamanha superioridade, do mesmo jeito das menores colinas que jazem sobre os vales, do mesmo jeito que os irrisórios homenzinhos que se apressam ao longe de toda minha, agora abalada, inabalável convicção de perfeição.
Desço, visto que não há outro jeito. Vejo os pássaros - seus assobios ficando distantes; as árvores - aumentando e diminuindo ao longo da caminhada; os bichos que antes não conhecia - alguns fujo, alguns mato, alguns corro; o teto celestial - me desabrigando mais e mais.
Estou, então, entre os homens. Na selva de pedras dos arranha-céus, das máquinas mortíferas de ferro endiabrado, dos colóquios, das prostitutas, das conversões de gênero e de caráteres. Atiro minhas pedras, corro os meus metais, prolifero meus verbos, atiço minhas putas e converto minhas desonras.
Mas a montanha não desmorona. A montanha, lá no longe, muito longínquo e sossegado, permanece em sua grandeza - a despeito da minusculização de mim. Nos infortúnios, nos desesperos e nos momentos de aparente êxito, miro o alto, o distante, o quase infinito. Não vejo o céu, não ouço os pássaros, não cheiro as colinas: há apenas a montanha - majestosa e colossal tal qual nunca me passou sob os pés.