quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Felicidade Boiando na Privada -- ou no Aquário de um Peixinho Desolador

O segredo é se manter instável, se manter inerte e se movimentando o tempo todo como um peixe se debatendo fora do aquário sem imaginar a imensidão e a majestosidade de todo o mundo que existe fora do seu maldito e pequeno aquário. Todo mundo morre mesmo. E ainda nem se vira peixe assado na brasa -- que é muito bom. Se bem que viver uma vida miserável toda dentro d'água de um aquário doméstico deve ser pior que qualquer inferno.
Já imaginou quanto tempo você perdeu sendo feliz? Digo perder no sentido amplo e mais compreensível possível da palavra -- já que tudo o que se faz aqui é perder mesmo. Perder tempo, paciência, células e até o juízo. O negócio é que há de se perder também essa felicidade mundana e obliteradora que nos corrompe até o menos devasso e subversivo instinto. Ser feliz ficou no passado, naquela viagem zen-budista ao nada, ao vazio, à cafeína e ao mais torpe e profundo desespero humano.
Já pensou se o peixinho dentro do aquário tá feliz, infeliz? Claro que não tá. Ele não liga pra isso. Ele é muito mais inteligente que você e não liga pra isso. Ele tem tudo de que precisa. E tudo que ele precisa são seus instintos peixinianos. Não tem produtividade, não tem cronograma, não tem desova pra entregar na segunda-feira nem merda nenhuma dessas criações da aberradora natureza humana.
Eu posso dizer e lhe digo, seja você meu amigo ou meu inimigo, a felicidade é completamente dispensável e prejudicial. Você descobre isso à medida em que vai ficando mais sério, mais velho, mais morto, mais gordo e -- possivelmente mas não necessariamente -- mais barbudo. É tudo a confirmação da mesma merda: tudo é uma merda. Inclusive este texto.