domingo, 20 de novembro de 2011

A Verdade Por Trás do Morro

Este não é um relato de um diário. Não é auto-biográfico - pior se fosse. É o retrato da vida de um ingrato, um mal amado, um maltrapilho e um bem humorado rapaz. Seu nome: João Lucas. Talvez o designe como João, outras vezes Lucas ou ele ou aquele ou o protagonista desta miúda novela - pelo bem da leitura. Talvez, ao decorrer dos próximos parágrafos, não me refira a ele de maneira alguma.
Isso por que não merece ser citado por mais de que um mero parágrafo introdutório. Não é estrela, não é ator de cinema, nem é artista. Apenas um rapaz favelado que perdeu a virgindade aos 8 anos de idade - estuprado pelos colegas mais velhos, pela vida e por sua própria natureza.
O primeiro trago se deu aos 11. Não por intermédio de seus vizinhos traficantes, que controlavam a maior boca do morro e mandavam em todo o pedaço. Havia sido dentro de casa mesmo, com um mal matado baseado que o pai havia, desajeitadamente, deixado em um canto escondido (quase tão escondido quanto todos os outros) do piso de barro batido do barraco em que morava.
Acendeu, puxou, segurou. Deixou que aquela dose gasosa de felicidade se consumisse por entre suas entranhas e atingisse um lugarzinho em sua mente que outra coisa jamais havia atingido - mesmo depois de tantas porradas, xingamentos e humilhações. Deixou-se recostar na parede, de pé, e ficou por ali mesmo, extasiado. Abriu um sorriso completamente gratuito e sem sentido às paredes de seu deteriorado casebre.
Desde então, toda a sua vida foi assim: vivendo dos restos de felicidade alheia. A primeira namorada, aos 13, a mulher mais gorda e feia de toda a marginalidade, havia restado só aos cacos de toda a experiência que - aos trinta e um anos de idade - acumulara das fodas que já tinha dado. Todos os brinquedos e pertences, o que inclui a velha mobília e o .38 enferrujado: herdados do irmão mais velho que mal conhecia. Os gols nas peladas de sábado, as doses amarguradas da cachaça do bar da esquina, os resquícios das notas de velhos violões roubados, dados ou emprestados.
João Lucas. Nunca ladrão, nunca estuprador, nunca assassino. Talvez quase nunca. Talvez tenha sido por um fiozinho de nada. O mesmo fiozinho de nada que separava a ejaculação intra-vaginal de seu velho pai em sua mãe pré-adolescente - que, nesse caso, não aguentou.
Agora já tem quase 30 anos e é um jovem feliz. Não sabe mais do que precisa, não xinga, nem se lastima e nem murmura de sua ingrata vida menos do que precisa