Não escrevo mais. Não escrevo por que todas essas mentiras são, na realidade, a mais pura realidade. Não escrevo por que não sinto, não vejo, não penso, não falo, não finjo. Não escrevo por que não estou cansado e não estou prestes a viver mais um dia. Não escrevo por que já morri há algumas semanas.
Rabisco estes rabiscos por puros pleonasmos indistintos de uma alma que jaz liquefeita nas mentes dos mais vulgares humanos. Daqueles que pensam que pensam e sabem que sabem mas não sabem - nem tampouco pensam. Na velocidade da fuga. Na vontade da vulva. Transcrevo pensamentos insólitos e indefesos que se desprendem do meu inconsciente voraz e meu insensato consciente.
Releio, com meus míopes olhares, as palavras que teimam em surgir num branco tão límpido e em paz. O branco da tela é tão suave e agradável quando assim - inerte. Mas sou vil. Pecaminoso. Sujo. Teimo em quebrantar a lívida paz que reina no interior desta eletricidade mórbida. Teimo em condenar ao fogo do inferno os meus ledores, meus credores e os meus amores. Só por maldade.
Julgam-me bom, os insensatos. Impuros de coração: perfazem em elogios os seus mais obscuros desejos ao tentarem me persuadir de que não sou o que sou com suas pérfidas palavras de desprezível deleite. Açoitam-me pela poesia, pela prosa e pelas liras. Maculam-me o verso cantado, o falado e o soprado. A bondade dos bons me fustiga mais que a minha própria sanidade.
Poupa-me, Deus de todas as divindades, da bondade, da justiça e da honra que já não existem. Poupa-me deste não. Deste, desse, daquele e de qualquer outro que há de existir nesta frase ou no parágrafo que segue. Se ele seguir.