Saí do quarto apressado, como quem sai de si. O tiro tinha sido fatal, isso era certo: na cabeça, sem muita bagunça, sem balbúrdia, tudo bastante silencioso. Estava mal vestido e não tomava banho há várias horas. Os pés pretos. Parecia o que de fato era: um assassino a sangue frio de sangue latino quente e concupiscente.
Não que eu queira perdão ou a misericórdia alheia, mas eu tinha de fazer -- tinha de ser feito! O sujeito era só carne: sem sentimento, sem dor, sem culpa, sem amor algum, completamente frívolo até à mais ignominiosa boceta. Sem jeito. Aparentava até ter algum estilo mas aposto que não ia além dos cabelos compridos, o olhar galante de peixe morto e o porte atlético digno do Olimpo. Nada mais.
Já estava até morto, na verdade, penso eu. Vivendo às custas do governo -- uma aposentadoria de fazer pena --, escutando suas músicas velhas, lendo os velhos livros, acordando e deitando sempre do mesmo jeito, na mesma cama -- nessa mesma que agora impugna com seu sangue escuro e denso. Tocava sempre as mesmas músicas no seu velho saxofone. Não se empenhava em aprender novas. Nada novo. Ninguém novo. Nenhum broto. Sempre as mesmas bocetas velhas e frias. Vê, agora, que lhe fiz um favor?
A espera era o seu único delírio. O que ainda, não se sabe por que diabos, o prendia à vida, à terra e a essas coisas mundanas -- das quais eu, canonicamente, tive o desprazer de o extirpar. Esperava também não sei pelo quê. Talvez apodrecer mais e mais a ponto de ficar podre o suficiente para escrever um livro, plantar uma árvore, encontrar o sentido da vida... talvez.
Bem... agora não há mais dúvida alguma. Uma aposentadoria a menos.
E até nunca mais.