sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Brincadeirinha de um Pirralho Safado

Diabos! É muito mais fácil viver quando se é criança. Começo a ter um pouco de inveja dessas criaturinhas um tanto diabólicas, um tanto angelicais, que apenas ficam olhando o mundo. Não parecem ter nada na cabeça, apenas olham, olham, fazem o que der na telha, sem medo, dó, nem piedade. Os adultos também não parecem ter muita merda na cabeça, mas ainda essa qualidade de poder divagar mentalmente mundo afora é perdida quando se cresce. E muitas vezes as crianças são mais sensatas que humanos em plena maturidade. E nem precisam se preocupar com suas atitudes - que se dane se comer cocô faz mal à saúde ou andar de velocípede na BR101 é perigoso -, apesar de conseguirem sentir quando perigam levar uma surra.
Ah, os joguinhos sexuais! Brincar de médico ou papai e mamãe com a amiguinha. Pretextos para desvendar os segredos do "paciente", papai trabalha, mamãe lava roupa e depois fazem o que papai e mamãe fazem à noite no quarto. Só não se sabe bem o que é. Mas se faz. Quando não há malícia nisso, soa tão bem e interessante. Depois o médico é sinal de doença, problemas e morte. Papai e mamãe não agüentam mais olhar um para a cara do outro, só fodem de quatro ou similarmente. Os adultos são mesmo um monte de lixo.
Havia uma amiguinha minha, há uns dez anos, que gostava de bancar a enfermeira. Dava-me uma bela examinada, apalpando meu pênis e notando a reação. Anotando tudo no seu caderninho de putaria mental. Logo após, como o homem da casa, eu ia para cima dela, sabia que tinha algo a fazer. Meti a língüa naquela xoxotinha. Não era bom nem ruim, não fedia nem cheirava, mas meu pai deveria fazer isso com minha mãe também - eu acho. Depois de um tempo a minha língüa começou a coçar. Porra, se hoje eu estivesse executando um cunilíngüe e minha língüa começasse a coçar, eu ficaria seriamente preocupado. Mas naquela tarde não tive preocupação alguma. O gosto deveria ser aquele mesmo, oras. Hoje, quando a vejo passar por aí rebolando sua bunda gostosa - nunca nos falamos - ainda sinto a sensação de ter comido um abacaxi. Será que o gosto dela mudou? Espero que sim, mas não estou a fim de experimentar. Isso é, de novo.
A coisa é que as crianças sabem viver. Depois desaprendem. Eu não ligava para porra alguma: comia tudo que visse na frente, chorava, fugia ou brigava quando algo me desagradava - se eu fizesse isso hoje, eu seria um andarilho sentimental e recalcitrante, provavelmente já estivesse morto. Talvez melhor assim. Logo conheci as mulheres, elas faziam algo de diferente com a minha cabeça, e eu começava a perder minha infância. Quando me decepcionei com as garotas e percebi que elas não queriam nada comigo, reciprocamente, o álcool invadia minha cabeça. E era demais. Mas era. Vieram outras drogas como álcool e mulheres, mas nada de novo. Hoje eu ando desconhecendo tudo. Melhor assim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Os Filos e as Filas

Fui ao supermercado. No caminho, encontrei um amigo que fez "legal" para mim à distância. Ele não chegava aos três anos de idade, mas erguia o braço e estendia o pequeno polegar veementemente e com certa diligência. Tenho certeza que em seu pequeno cérebro de criança não fazia idéia de que significava aquilo: em sua face não havia nenhum sinal de contentamento ou surpresa ao me ver. Apenas fazia isso, como um animal doméstico é ensinado a cagar sobre o jornal. Talvez todos os humanos sejam domesticados - ou, ao menos, a grande maioria deles. São ensinados a aprender, a ser bonzinhos, bonitos e ter sucesso. Domesticam-se à idéia de que pensam e são racionais. Quiçá os cachorros e gatos também pensem ser racionais, mas não são.
Fiquei feliz com o sinal de "legal" do guri. Eu o ensinara a fazer aquilo, acenando sempre que o via. Agora sentia-me um hábil adestrador. Quando entrei no supermercado, deparei-me logo com a funcionária mais bonita. Tava feito! Mesmo que não houvesse o que eu iria comprar no estoque, ou se meu dinheiro não fosse suficiente para comprar, não importava: minha ida já tinha sido compensada pela presença daquela figura, que me olhava estranhamente - como todos os outros olhavam.
Peguei alguns ítens dos quais precisava - ou não - e dirigi-me ao caixa de menor fila. Minha vizinha vinha logo atrás de mim, e eu já esperava a algum tempo por essa oportunidade de estar mais próximo - que uma calçada de distância - a ela. Deixei as frases programadas curtas e banais de lado:
- Você ainda tá namorando aquele cara?
- Estou - disse com o sorriso de sempre.
- Ah, que pena.
- Porquê?
Eu não gostaria de responder a essa pergunta. Não mesmo. Olhei-a de uma maneira que ela pudesse compreender o que eu estava pensando. Não poderia ser tão difícil - afinal, ela é minha vizinha! Pelo jeito, ela não compreendera:
- Espero que esteja se dando bem com ele. De todo jeito, você parece ser uma mulher que sabe o que quer.
Eu conhecia sua fama de ninfomaníaca. E nem precisava conhecer para notar isso nela. Ela rebolava de um jeito diferente, como se quisesse foder com todos os homens do planeta - ou como já tivesse fodido. Com todos, menos comigo, ainda. E isso me atraía. Além do mais, o jeito como me olhava denotava curiosidade em me conhecer, em saber como seria me ter fodendo-lhe por trás.
De qualquer maneira, nosso diálogo resumiu-se a isso. Nada de chupadas e penetrações, até então - a menos que tenham ocorrido em sua mente.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Recepcionista Malvado

Havia um filha da puta tocando à minha campanhia. Tocou a primeira vez. Desci, olhei através do gradeado, abri as portas, dei uma volta pela calçada, olhei e nada. Tocou a segunda. Enfureci-me, desci ligeiramente as escadas, descalcei os chinelos - para ganhar velocidade -, mas não havia ninguém novamente. Tinha me demorado muito.
Decidi sentar-me na sala imediata à entrada e aguardar o novo soar da campanhia. Se tocou uma vez e outra segunda, certamente o desgraçado já me tinha bastante desrespeito para zombar da minha cara pela terceira vez. Destranquei a porta, deixei-a apenas encostada, sentei-me o mais próximo que podia para não ser notado pelo infeliz. Se houvesse a terceira vez, certamente não haveria a quarta. Só pedia à Providência que não fosse um pirralho, sem forças suficientes para levar uma surra decente.
A campainha tocou estridente e foi o sinal para eu me levantar e correr alvoroçadamente através das portas. Era um negrinho de nem um metro e meio, careca, de nem uns cinqüenta quilos. Devia ser um daqueles que eu sempre cumprimentava quando passava por esses grupos de pirralhos que brincam na rua. Eu me achava um cara legal, meio político. Mas só cumprimentava as crianças. O coitado corria desesperadamente, e eu atrás dele:
- POR QUE VOCÊ TOCOU A CAMPAINHA DE MINHA CASA, FILHA DA PUTA? - e, com o tempo que tive até alcançá-lo, que foi pouco - EU NÃO GOSTO DESSE TIPO DE BRINCADEIRA!
Quando o alcancei, agarrei com a mão direita - minha mais forte - em seu pescoço, suspendi-o na parede o mais alto que pude e pressionei minha mão naquela criança indefesa contra a parede, sem piedade. Havia ensaiado muitos discursos enquanto estava sentado, a sala escura. De última hora, decidi ficar calado mesmo, só atormentando aquela probre alma com minha mão direita, enquanto via o seu rosto ganhar uma coloração estranhamente avermelhada. Ele ficara mudo o tempo todo. Quando começou a ficar roxo, larguei-o ao chão e voltei pra casa. Acho que o ouvi soluçar algum choro meio sufocado. Legal, não estava morto.
É, há gente má nesse mundo.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Relatório Onírico

Eram 4:42h da manhã. Já vinha na mente a imagem de um sol - ainda distante - a nascer. Sabia que ele viria, e que merda! Eu estava adorando aquilo tudo: a madrugada, a bebida - que não era BEM alcóolica - o tempo, a ausência de humanos e a presença dela. Não a tinha visto muitas vezes antes, apenas no trabalho, quando fingia estar trabalhando. Mesmo não sendo um bom intérprete, eu não tinha culhões para cantá-la ali, em pleno expediente vespertino.
Que mulher! É intrigante como algumas mulheres fascinam, mesmo sem ser bonitas. São tesudas. E ela sabia mais que qualquer outra como ser assim. Suas pernas cheias e roliças sustentavam um ventre majestoso - digno da clássica mulher burguesa. Seus seios, tão sutilmente escondidos entre tantas vestes, pareciam sempre querer saltar em minha direção quando ela me olhava com aquele olhar safado, delinqüente, libidinoso. E, meu amigo, ela sabia como fazer aquilo.
Foi então - entre tragos de ar e outras coisas mais - que ela simplesmente abriu a boca e veio com língüa e tudo para cima de mim. Eu fiquei em êxtase. Levantou a blusa e deixou à mostra duas consideráveis porções de carne, redondíssimas, cada uma coberta de uma seda rosada que tentava esconder quase todo aquele peito. Era a gordinha mais gostosa que já vira.
Depois de todo aquele momento fora do chão, toquei novamente a superfície terrestre e avistei um estranho triângulo vindo em nossa direção. Não tive muito tempo para tentar adivinhar de que se trataria aquela visagem: o projétil aingiu a calçada, distando uns cinco metros de onde estávamos, n'uma horrenda explosão. Mandei-a correr, peguei alguns poucos pertences e corri desesperadamente.
Entrei no shopping. Vi umas vitrines, umas raparigas do passado e o piso molhado. Ainda estava à flor da pele. Entrei no mictório, fechei os olhos e acordei.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Capitalismo e as Bundas

Fui ao banco abrir uma conta. Estava determinado. Determinação era a palavra chave, o que eu precisava para tomar uma atitude tão insana. Não sabia de onde tiraria dinheiro para alimentar o mundo capitalista, mas tiraria de algum lugar.
Escolhi o banco cuidadosamente: apesar de ter menos caixas que os outros, era o banco com as atendentes mais bonitas. Não importasse quanto tempo passaria na fila, teria algo pra fazer enquanto isso - ficar cutucando com meus olhares pontiagudos as roupas finas e justas de todas aquelas charmosas bancárias. Nunca ouvi falar em um fetiche que envolvesse uma bancária. Talvez fosse o meu.
Havia uma garota com uma bunda fantástica. Não havia como NÃO olhar para aquele traseiro: você podia passar duas horas encarando aqueles olhos verdes durante uma conversa - não sei se ela tinha vocabulário para duas horas de papo - e, assim que ela virasse as costas, seus olhos simplesmente miravam aquele divino mistério na existência humana: como aquelas nádegas entravam naquela calça? Como será que ficariam completamente desnudas? Tudo nela chamava atenção: cabelos dourados, olhos verdes claríssimos, seios firmes, muita maquiagem. Aliás, tudo nela me parecia muito artifial. Em nada me atraía.
Não peguei fila, sentei logo na poltrona abaixo de uma placa grande marcada com letras garrafais: ABERTURA DE CONTAS. A atendente era uma moça que eu já conhecia há algum tempo. Foi na última vez em que enfrentei a fila de PAGAMENTOS E RECEBIMENTOS. Ah, sim! Eu tive o que fazer durante uns qüarenta e cinco bons minutos. Ela, definitivamente, fazia o meu tipo. Cabelos curtos e negros com umas mechas de cor flictis, rosto de mulher experiente, seios fartos, cinturinha delgada, um bumbum sereno que ficava delicioso e tentador apertado por aquele tecido da calça do banco.
- Quero abrir uma conta. - disse isso e ela foi agindo como um robô, pedindo meus dados e fazendo perguntas indelicadas. "Espero que ela não seja assim na cama", pensei.
- O senhor deseja intitular a conta?
Puta que pariu! Tenho dezessete anos e essa gostosa me chamando de senhor.
- Como assim intitular?
- Algo como "Casa Própria", "Carro Próprio", "Propriedade".
- Pode por Sonho Impróprio. - tinha de ter algo com propriedade? Esse mundo capitalista tão egoísta e rotulista.
- Bem, é um título. Certamente uma casa, um carro ou uma propriedade. - ela disse, com o tom mais informal que uma bancária gostosa poderia usar ao atender um cliente em plena terça-feira às onze da manhã.
Há mulheres que sentem mais tesão pela manhã.
- Vou me mandar daqui. Não tem muita gente que intitula sua conta com "Viagem" ou "Fuga"?
- Não. E quanto de quanto dinheiro você vai precisar para realizar esse sonho?
- Não estou preocupado com isso. Tudo o que eu puder acumular até chegar a hora de ir embora.
- E quando vai ser o momento de ir embora?
- Não estou preocupado com isso. O momento vai chegar, espero que não demore muito.
Ela terminou e me deu o número da conta, a senha, etc.
- Volte em uma semana para pegar o cartão.
Levantei, saí e dei de cara com o mundo: mais quente, mais feio e mais pobre - com cem reais a menos - que quando havia entrado no banco. Nada mais de gostosas bancárias por hoje. Tinha esquecido de reparar no corpo de minha atendente enquanto ela me fazia todo aquele questionário. Talvez, procupada com meus olhares, ela se ocupava em me entreter o máximo que podia. E conseguiu. Mas tudo bem, eu voltaria mesmo. E meu expediente da manhã estava perto do fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cubículo, às Imagens de Coexistência.


Que demônio é este; que convulsa a aspiração demasiado humana de se intervir pelo próprio ser, qualquer que seja. Às utópicas, boníssimas, libertárias, reacionárias e imitantes correntes de projeções ideológicas, recorre-se uma outra falha de alvorecer - extirpados e triviais. Transtorna-se - contudo - o fluxo social desconexo, estereotipado, avulso e deslógico acerca de morais e éticas benditas. Onde há de se aflorescer o aflito e ignaro propósito de interpor-se à condução expressiva do ser (civil ou desrotulado), abdicando da projeção pessoal e indeferível desse mesmo.
Fundem-se - prontamente - outras fragilidades inerentes às retóricas banais: a utilização de diálogos conservadores anti-científicos, a soez difusão de informações incoerentes, a debilidade ética ou moral aplicada às diversidades sociais, a violência transpositiva de zero aos pseudo-criminosos (ou criminosos - o que é sê-los?), a negação às provas referidas em pesquisas aprofundadas e focalizadas, o intermédio de projeções religiosas ou tradições prepotentes, a inefabilidade da conduta negativa, intensiva, inoportuna e excedente à autonomia alheia.
Que proceda a interconexão global à este conceito aberto; e que se inopere a argumentação inane, conduzindo tanto prós quanto contras a um decurso coeso e amplo.

Avante Marcha!

Pois que a folia é de agora! Ao soberbo rancor da euforia urbana; inflamada às veias de um sangue esverdeado e do azul rústico que enfeita os céus indomesticados, daquelas desvirtuosas capelas derrubadas. E de já faça-se cônscio do monstro que se eleva - e se estende duma flora arraigada em desapego; entre didáticas esdrúxulas, afeições corruptas e a leviandade em ser humano. Apenas assim - tão descaminhado do Universo, é que também tão liberto às imagens da coexistência.


(Escrito acrescido a um d'outrora, postado - como comentário - em "Coletivo Marcha da Maconha")


Thacle de Souza Pinheiro.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Feliz Ano Novo!

Avisa mãe que eu vou sentir falta. Falta e saudades, as quais já sinto e as quais não parecia sentir. Amanhã posso tá de volta ou posso tá indo 'inda embora, se me demorar tanto nessa nota de descomprometimento. Avisa também que descomprometer - expressão feia! - não é com ela, não. É com os outros, mas não com ela. É com todo o mundo e o mundo todo, menos ela.
Desavisa vizinho, parente e enteado todas aquelas minhas notinhas pechinchas de coleguismo barato. Que o porquê que fiz eu não sei mas o porquê de não o fazer sempre esteve comigo, só faltei me explicar. E para não precisar prosear sobre minhas explicações preferi assim fazer: filosofar essas hipocondríacas hipocrisias para me ver livre da cena.
Diz que é um ano novo mas eu continuo sempre o mesmo - pensando que ano que vem, que é o que já veio, tudo melhora. E assim todo ano, entra-e-sai, não mudo eu nem essa orgia que é ficar contando repetidos trezentos e sessenta e cinco dias. Tá bom que quando em quando é seis, mas que é um dia a mais ou dia menos se até esse que aparece e some feito mágica é igual, todo ano.
Desiluda a todos quanto às minhas ilusórias notas de tranqüilidade e otimismo para o futuro. Tá tudo acabando, pior que não vai mudar nada. Vai ficar e viver tudo acabando e vocês vão se acabar de viver e nada ficando.