sábado, 15 de novembro de 2008

O Recepcionista Malvado

Havia um filha da puta tocando à minha campanhia. Tocou a primeira vez. Desci, olhei através do gradeado, abri as portas, dei uma volta pela calçada, olhei e nada. Tocou a segunda. Enfureci-me, desci ligeiramente as escadas, descalcei os chinelos - para ganhar velocidade -, mas não havia ninguém novamente. Tinha me demorado muito.
Decidi sentar-me na sala imediata à entrada e aguardar o novo soar da campanhia. Se tocou uma vez e outra segunda, certamente o desgraçado já me tinha bastante desrespeito para zombar da minha cara pela terceira vez. Destranquei a porta, deixei-a apenas encostada, sentei-me o mais próximo que podia para não ser notado pelo infeliz. Se houvesse a terceira vez, certamente não haveria a quarta. Só pedia à Providência que não fosse um pirralho, sem forças suficientes para levar uma surra decente.
A campainha tocou estridente e foi o sinal para eu me levantar e correr alvoroçadamente através das portas. Era um negrinho de nem um metro e meio, careca, de nem uns cinqüenta quilos. Devia ser um daqueles que eu sempre cumprimentava quando passava por esses grupos de pirralhos que brincam na rua. Eu me achava um cara legal, meio político. Mas só cumprimentava as crianças. O coitado corria desesperadamente, e eu atrás dele:
- POR QUE VOCÊ TOCOU A CAMPAINHA DE MINHA CASA, FILHA DA PUTA? - e, com o tempo que tive até alcançá-lo, que foi pouco - EU NÃO GOSTO DESSE TIPO DE BRINCADEIRA!
Quando o alcancei, agarrei com a mão direita - minha mais forte - em seu pescoço, suspendi-o na parede o mais alto que pude e pressionei minha mão naquela criança indefesa contra a parede, sem piedade. Havia ensaiado muitos discursos enquanto estava sentado, a sala escura. De última hora, decidi ficar calado mesmo, só atormentando aquela probre alma com minha mão direita, enquanto via o seu rosto ganhar uma coloração estranhamente avermelhada. Ele ficara mudo o tempo todo. Quando começou a ficar roxo, larguei-o ao chão e voltei pra casa. Acho que o ouvi soluçar algum choro meio sufocado. Legal, não estava morto.
É, há gente má nesse mundo.