Dos tempos em que morei em Salvador, uma das únicas amizades que travei fora com seu Chico, que morava próximo à minha casa. Não era bem uma amizade. Mas apenas uma relação cordial, dessas que se fazem por onde e a gente nem mesmo sabe de onde. Dessas em que não existem cobranças, falácias e falcatruas. Dessas que não carecem de explicação. Não nos víamos sempre. Apenas de vez em quando, aos fins de semanas, feriados e (ou) dias santos, quando passávamos algum tempo conversando sobre coisas que não existem mais. Ou quando, na volta do colégio, eu o via sair de casa, com cara de satisfeito, de refeito, arrumando a roupa, conferindo o fecho éclair, acenando para mim e entrando no carro, de volta ao trabalho. Seu Chico era servidor público. Trabalhador público. Não sei bem ao certo, mas alguma coisa que não era dele mesmo. Era do público inteiro, menos dele.
Um dia, num desses encontros de vistas, resolvi me aproximar de supetão e indagá-lo sobre o que estava fazendo àquela hora, em pleno dia de branco (néscia expressão), quando deveria estar trabalhando - no diabos de lugar que fosse o local de sua labuta diária. Seu Chico me disse que os deveres com seu emprego eram, de fato, importantes. No entanto, os deveres que tinha com sua patroa eram ainda mais importantes que aqueles outros. Pensei alguns instantes naquilo e, antes que meu colega de amizade adentrasse seu carro, fingi que tinha entendido perfeitamente a situação. Que concordava com o que havia escutado. E que, acertadamente, agiria da mesma maneira quando arranjasse uma mulher - se viesse ao caso de arranjar uma algum dia.
Na verdade, o que me acometeu, ao ouvir aquela resposta, foi uma súbita e profunda tristeza. Tivesse me dito que a mulher o chamara para matar uma barata, que precisava afrouxar os colhões ou que não conseguia satisfazer suas necessidades mais básicas (se livrar de uma maldita dor de barriga com uma bela cagada, por exemplo) em outro lugar que não fosse o banheiro de sua casa. Ou não me tivesse dito coisa alguma, oras! Mas aquela explicação de ter de cumprir com seus deveres matrimoniais explicitava por completo o medo que sentia de levar cornos. Ele tinha medo. Medo de que, estando no trabalho, dona Madalena sentisse vontade de ter algo a mais entre as pernas. Algo além de uma vulva baiana úmida e libertina. Algo que não fosse dele, coitado.
Lembrei do meu velho camarada enquanto caminhava, ainda hoje, de volta da faculdade. Passei na padaria e o senhor que atendia ao caixa me chamou de campeão. Não nos conhecíamos. Não sei como ele adivinhara aquilo. Mas agora nos conhecíamos um tantinho mais, depois de saber que ele sabia o que eu era de fato. Paguei o que me era devido pagar e, ao me virar, vi a senhora que atendia ao balcão entregando um pão a um bebê, de cortesia. O menininho, de súbito, sem nem dobrar aquelas articulaçõezinhas na iminência de levar o pão à boca, continuou com o braço estendido, agora em minha direção, oferecendo-me o que havia acabado de receber - de cortesia! Não acreditei que era pra mim. Eu e cada fio de ignorância e estupidez que forma meu arisco bigode. Mas, logo depois, o pequeno ofereceu o pão a uma garotinha. Ofereceu daquele jeito dele, de olhos bem abertos e apenas o bracinho esticado, em gesto de firme e gentil atitude.
Saí da padaria com um sorriso no rosto. Ah, vamos. Não era apenas um sorriso. Era uma gargalhada completa que começava do chakra que é a nascente de todo e qualquer bom sentimento que um humano pode sentir. Uma sensação que não sentia já há algum tempo, que adormece indefinidamente dentro da gente e só se faz sentir quando se vê algo de sincero, real e da mais pura bondade - que quase já não há no mundo.
Talvez dona Madalena fosse como aquele bebê. Não se continha em receber apenas. Havia de dar. Recebia todo o sexo, que era dever de seu Chico, e o saía espalhando, às pernas estendidas. Quiçá nem tivesse sequer o trabalho de fechá-las. Despertava, em gestos de magnânima bondade, essas sensações tão aprazíveis nos diversos homens que eu via sair da casa do casal, quando, provavelmente, seu marido cumpria com outros deveres. Homem de tantos afazeres. Tenho para mim que ele era feliz: sabia que estava cumprindo com todos e isto era o que importava.
Este texto não ficaria completo se não houvesse um parágrafo aqui revelando a minha completa incerteza sobre todas essas maldades que são inerentes à espécie humana. Incerteza que já é, de certa maneira, uma das maldades. De quando em vez, convenço-me de que cada cidadão que saía das abas de dona Madalena, pela porta da frente de sua casa, estava ali para outro ofício, qual não o de satisfazê-la das suas mais torpes concupiscências. Um dia era o entregador de água, no outro já o carteiro, na outra hora era o cobrador de aluguel, minutos depois de seu Chico sair era o eletricista terceirizado. E assim ia se fazendo a minha bondade: encontrar emprego para todos aqueles cabras - talvez nem existam tantos cargos no Brasil. Possivelmente, foi onde empreguei toda a minha bondade em relação às minhas reminiscências do meu velho amigo. Bondade que foi de toda omitida nestas vis palavras. Não faço mais, seu Chico. Deixo tanta malevolência para dona Madalena.
Um abraço.