quarta-feira, 6 de julho de 2011

Foram-Se

Mais um dia acordado, a noite virada. Lendo os meus versos perdidos, dos quais eu não sei qual será o destino. Talvez eles tenham um destino depois que eu me for. Quando a vida me quiser levar, por todos os versos que escrevi. Por toda e cada torrente de palavras que partiram destes dedos de cá, que agora compõem este insone texto.
Foram letras de amor, todas. Algumas, até, um tanto amáveis; outras, amabilíssimas. Ao menos ao meu coração de poeta e piegas. Não sou poeta. Nunca escrevi poesia. Nunca escrevi prosa. Nunca cultuei o amor quimérico, bucólico e platônico. Nunca vi Marília, 'inda menos senti algo por ela.
Foram letras de pavor, todas. Do medo que se sente e é compulsório - ele desencadeia esta frase e a próxima, bem como a anterior. É o medo que se sente que me impulsiona adiante. O medo de sentir medo, inclusive. O medo de sentir, inclusive. E o sentimento do medo, como já dito antes. Como já dito.
Foram letras de maldade, de vida e de morte. Letras malditas. Que não se podem julgar ou classificar, mas que ainda podem ser lidas - atente bem. Ainda é possível pousar as cansadas vistas sobre tais manchas e se sentir maculado por sua sentimentalidade inerente.
Foram letras de criança, de vadia, de moleque. As quais não podem ser criticadas por sua ingenuidade, espontaneidade e credulidade dignas de quem ama pela primeira vez. E ama de novo pela primeira vez. E ama. E, a cada vez, eis que o amor se faz regresso àquele primeiro, sentido pela garota do colégio dos oito anos de idade.
Foram letras de defunto, decrépitas, moribundas. Aqui, creio, não é necessária uma explicação ou definição mais específica para o teor mortífero de minhas letras. Que tal explicação seria completamente sem vida, inane, inerte.
Foram letras de mudança. A cada uma delas, que sucede a outra, que sucede mais uma e mais outra e outra, outra, outra e assim por diante. Palavras sem um começo bem definido - e um fim pior que o começo. Não importa o começo das coisas, mas sim o fim delas. O meio foi sempre tão perdido quanto as outras partes. As frases foram sempre traçadas pelas linhas imaginárias do pensamento. Torpes linhas.
Foram palavras.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um Certo Alguém

Dificilmente, em nossas insanas vidas, ficamos quase um ano esperando por alguém que há de chegar. A ânsia pelo primeiro encontro cresce com o passar do tempo. O momento tão esperado é sempre imprevisível e incerto - tanto quanto qualquer outra coisa. A realidade é real? Imprevisibilidade, incerteza e realidade não importam quando se tem alguém por perto cuja presença há tanto tempo se fazia desejada.
A emoção da realização é ainda maior quando o ente tão esperado é amado mesmo antes de ser conhecido. Maior que isso: é querido mesmo antes de existir; existe mesmo antes de nascer; nasce e cresce dentro de si antes mesmo de ter sido dado à luz. A mais pura forma do amor vital é aguardada ansiosamente mesmo sem antes ter partido.
Eis que é chegado. Não é regresso. Regressas são as noites de aflitiva expectativa, nauseantes sensações e insones pensamentos. Regressos são os temores que assolam toda e cada nova vida - depois de se terem dissipado pelo tenro instante em que tudo o que há é a grandiosidade do amor materno. Todas as outras coisas - preocupações, insatisfações e angústias - ficam à sombra de tal amor, beleza ofuscante de todas as mazelas que existem e hão de existir enquanto houver vida.
É a vida que chega. É a esperança de que o triste e vazio mundo pode ainda ser salvo. A salvação tem, obviamente, o rostinho do papai e o jeitinho da mamãe. É a vida que salva tantas outras vidas, multiplicando - com seus singelos e quase desapercebidos batimentos cardíacos - o fluxo sanguíneo nas veias de quem a ama. É a fonte de inspiração que faz viver as estruturas mais mortas de uma sociedade já descompassada e quase que completamente desfeita.
Eia, chegou o bebê! Indaguemo-nos deste e de todos os outros mistérios que hão entre a vida e a morte. Discutamos as responsabilidades de cada um - mas, principalmente, a nossa própria. Avivemos em nosso peito a gentileza, a generosidade e a ingenuidade que este novo ser nos inspira. Amemo-o sempre. Mesmo quando o esperado momento da chegada for um tempo remoto e indistinto.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Estratagema

Escreverei um livro. Em verdade, já comecei a escrevê-lo - desde o dia em que nasci. Não é uma merda de uma biografia. Que minha vida não vale ser narrada. Nem é qualquer outra coisa que se possa descrever em palavras quais não aquelas que suas páginas terão em manchas negras de toda uma vida.
Não sei qual será seu intuito, nem sua serventia. Nem mesmo sei se terá algum intuito ou alguma serventia. Há qualquer intuito na vida? Há qualquer serventia na vida? Se há, então hei de escrever um livro. Ele será grafado em linhas de femininas curvas - as mais belas! Suas vestes singelas e profanas farão erigir até o mais sagrado pênis. Em sua capa, haverão expostas todas as calcinhas que já vi e despi e, em seu interior, toda a excrescência que é resguardada por detrás de melindrosos tecidos.
Não vai haver sexo, não. Temo descomprazê-lo, meu querido ledor, mas não haverá putaria em minhas mais formais e físicas palavras. Elas serão o próprio sexo! Elas serão a própria putaria! O Marquês há de se revirar em seu túmulo, ao vislumbrar de outras - celestiais ou infernais - esferas o fogo vívido e pungente que arderá em minhas letras.
Não haverá frivolidades, apatias e dissabores - nenhum desses que me carcomem o espírito. Cada parágrafo será uma única e transcendente verdade vital, em que não há espaços para as desventuras da vida. A verdade é, por vezes, a própria desventura. Seu gênero não será romance. Não será ficção. Não será não-ficção. Não será classificável, perceba-se bem.
Não será inovador! De maneira alguma! Será retrógrado. Dotado de todo o ufanismo parnasiano e a pieguice de bucólicos - remotos - tempos. A própria imagem da nostalgia. Obviamente, deve-se presumir, não será nostálgico. Será romântico, sim. Ultra-romântico. Tal qual fui, sou e hei de ser até que me acabem por completo as pessoas, o mundo, a terra e seus micro-organismos decompositores.
Não escreverei entre suas letras tantos advérbios de negação. Eia, talvez haja neste parágrafo algum espectro de enganação ou falsidade. Mas a creia benévola, meu caro ledor! Será pelo bem do meu estilo iliterado e marginal - se é que há de ter estilo o autor de obra tão visceral. Meus próprios miolos, entranhas, excrementos e fluidos serão meu estilo em quando possuído pelo demônio da concepção prosaica.
Crer-me-ão insano, doente e fanático. Crer-me-ão. Querer-me-ão morto, crucifixado, empalado. Querer-me-ão. Exaltar-me-ão o silêncio, a deficiência e o celibato. Exaltar-me-ão.
Seu nome será Estratagema.

domingo, 3 de julho de 2011

Filósofos são a Escória da Filosofia

Não sou filósofo. Nunca estudei filosofia - além daquela que costumamos ver na escola e em nosso cotidiano. Mas, na verdade, orgulho-me disto. De não ser filósofo (graças a Jah!) e ainda poder refletir sobre os aspectos mais corriqueiros que hão na vida, no mundo e no resto de tudo que há.
O problema dos filósofos é, de modo simplificado, o mesmo de qualquer vão literato, acadêmico ou político - em suas versões pernósticas eruditas, se essas não forem suas formas naturais. A questão é que esses ignominiosos seres julgam-se superiores a qualquer reles mortal que não seja - maldita expressão - da área. Schopenhauer já escreveu suficientemente sobre os homens da área. Vá lê-lo ou tomar um banho ou dormir ou se foder ou foder sua esposa ou se masturbar. Acho, inclusive, que Schopenhauer é um crítico desgraçado e não um espírito superior, como o próprio se julga. Eu também não sou, de fato - o que pode fazer com que minha opinião a respeito do respeitado escritor (pra não dizer filósofo) não valha de nada.
Esses desprezíveis seres perdem a sua capacidade de análise à medida em que devoram descomedidamente as ideias e posições alheias - de maneira indecentemente estúpida. Prova disso é a "adesão" a uma determinada linha de raciocínio que acaba agrupando os dignos "pensadores" em torcidas organizadas escrotas - peço perdão ao pessoal do futebol pela analogia barata.
Se há uma filosofia que sigo - ou tento seguir - é a do KISS. Keep It Simple, Stupid! Se tantas ciências já julgam o ser humano como um ser racional e inteligente, por que diabos eu vou querer complicar tudo o que já é fato com alienações, banalidades e distinções medíocres? Portanto, vão escrever livros de história em vez de transformar toda uma ciência (que - há alguns séculos - já teve algum prestígio) em apenas um mecanismo de auto-ajuda. Ou vão procurar uma trouxa de roupa pra lavar. Ou vão se foder.

A Mulher Mais Linda da Cidade

A vantagem de ser feio é não despertar o fogo fátuo do amor impudico, efêmero e pérfido de quem gosta só pela superfície. Aliás, essa não é a única vantagem. Há sempre o fato de precisar compensar a falta de uma aparência amena e agradável aos outros - para sobreviver.
Quem gosta de um feio, há de gostar por razões menos voláteis que um rosto ou corpo bonito - que hão de se desfazer por qualquer deformação, além daquela que o tempo invariavelmente exerce sobre os humanos. Não desacredito o gostar autêntico baseado em belos rostos, peitos e bundas. Apenas exponho neste parágrafo a sua fugacidade inerente e perpétua - enquanto ele existir.
Não gosto da primeira pessoa - eia coesão textual! - nem na poesia, nem na prosa. Mas ela é necessária por vezes. Não é um culto à necessidade de exposição anônima - que eis um blog minimamente exposto. É simplesmente uma apatia natural e veemente, tal qual aquela que sinto ao me deparar pela primeira vez com pessoas aparentemente perfeitas. Agora, sim, é um culto ao ódio, à inveja, ao pecado e qualquer outra putrefação interior que alguém possa possuir - ou, pior, sentir.
Procurando manter a linha de raciocínio do parágrafo anterior, talvez eu desgoste de todas as outras pessoas também - não apenas da primeira. Por isso - declaro com ar literariamente egocêntrico - que é melhor usar a primeira que a segunda ou terceira.
Quando começar um novo parágrafo? Diabos. Isto está passando de instruções sobre comportamento humano a aula de redação. Já refleti outras vezes sobre minha decadência. É para isso que serve o Décadence Avec Élegance? Lá, há espaço para prosa, poesia, áudio, beleza, feiura, decrepitude e tantas outras coisas que se valem à pena de escrever.
Minha intenção não era, jamais, discorrer acerca da mulher mais linda da cidade - Petrolina, Recife ou Nova Iorque. Agora, um pouco de metainformação. Pretendia, em verdade, enaltecer a feiura. Feiura, feiura, feiura. Palavra feia. Fealdade! A mim soa melhor, e a ti? Isto é, a minha. E de outros feios que parecem ser bonitos. O título foi roubado de Bukowski - como a maior parte de tudo neste blog. Um dos mais belos feios que já existiu. O negócio é que, procurando na internet alguma referência sobre o texto do defunto, encontrei uma crítica dolorosamente superficial e uma crítica à crítica ainda mais doída. Então, perdi o espírito da coisa.
É o meu intuito, também - expandindo o parágrafo anterior -, não linkar porra de página nenhuma aos textos cá escritos. Será necessária alguma explicação ou motivo? Hiperlinks são a escória da Internet. Obviamente, não cheguei a cogitar fazer qualquer ligação entre este menosprezível blog a qualquer outro que tenha publicado uma crítica. Críticas são a escória da literatura. Este texto maldito não é uma crítica. Eu não sou um crítico. Eu não sou um filósofo. Filósofos são a escória da filosofia.
Estão aí três bons temas para as próximas publicações: hiperlinks, críticas e filósofos.