Mais um dia acordado, a noite virada. Lendo os meus versos perdidos, dos quais eu não sei qual será o destino. Talvez eles tenham um destino depois que eu me for. Quando a vida me quiser levar, por todos os versos que escrevi. Por toda e cada torrente de palavras que partiram destes dedos de cá, que agora compõem este insone texto.
Foram letras de amor, todas. Algumas, até, um tanto amáveis; outras, amabilíssimas. Ao menos ao meu coração de poeta e piegas. Não sou poeta. Nunca escrevi poesia. Nunca escrevi prosa. Nunca cultuei o amor quimérico, bucólico e platônico. Nunca vi Marília, 'inda menos senti algo por ela.
Foram letras de pavor, todas. Do medo que se sente e é compulsório - ele desencadeia esta frase e a próxima, bem como a anterior. É o medo que se sente que me impulsiona adiante. O medo de sentir medo, inclusive. O medo de sentir, inclusive. E o sentimento do medo, como já dito antes. Como já dito.
Foram letras de maldade, de vida e de morte. Letras malditas. Que não se podem julgar ou classificar, mas que ainda podem ser lidas - atente bem. Ainda é possível pousar as cansadas vistas sobre tais manchas e se sentir maculado por sua sentimentalidade inerente.
Foram letras de criança, de vadia, de moleque. As quais não podem ser criticadas por sua ingenuidade, espontaneidade e credulidade dignas de quem ama pela primeira vez. E ama de novo pela primeira vez. E ama. E, a cada vez, eis que o amor se faz regresso àquele primeiro, sentido pela garota do colégio dos oito anos de idade.
Foram letras de defunto, decrépitas, moribundas. Aqui, creio, não é necessária uma explicação ou definição mais específica para o teor mortífero de minhas letras. Que tal explicação seria completamente sem vida, inane, inerte.
Foram letras de mudança. A cada uma delas, que sucede a outra, que sucede mais uma e mais outra e outra, outra, outra e assim por diante. Palavras sem um começo bem definido - e um fim pior que o começo. Não importa o começo das coisas, mas sim o fim delas. O meio foi sempre tão perdido quanto as outras partes. As frases foram sempre traçadas pelas linhas imaginárias do pensamento. Torpes linhas.
Foram palavras.