Escreverei um livro. Em verdade, já comecei a escrevê-lo - desde o dia em que nasci. Não é uma merda de uma biografia. Que minha vida não vale ser narrada. Nem é qualquer outra coisa que se possa descrever em palavras quais não aquelas que suas páginas terão em manchas negras de toda uma vida.
Não sei qual será seu intuito, nem sua serventia. Nem mesmo sei se terá algum intuito ou alguma serventia. Há qualquer intuito na vida? Há qualquer serventia na vida? Se há, então hei de escrever um livro. Ele será grafado em linhas de femininas curvas - as mais belas! Suas vestes singelas e profanas farão erigir até o mais sagrado pênis. Em sua capa, haverão expostas todas as calcinhas que já vi e despi e, em seu interior, toda a excrescência que é resguardada por detrás de melindrosos tecidos.
Não vai haver sexo, não. Temo descomprazê-lo, meu querido ledor, mas não haverá putaria em minhas mais formais e físicas palavras. Elas serão o próprio sexo! Elas serão a própria putaria! O Marquês há de se revirar em seu túmulo, ao vislumbrar de outras - celestiais ou infernais - esferas o fogo vívido e pungente que arderá em minhas letras.
Não haverá frivolidades, apatias e dissabores - nenhum desses que me carcomem o espírito. Cada parágrafo será uma única e transcendente verdade vital, em que não há espaços para as desventuras da vida. A verdade é, por vezes, a própria desventura. Seu gênero não será romance. Não será ficção. Não será não-ficção. Não será classificável, perceba-se bem.
Não será inovador! De maneira alguma! Será retrógrado. Dotado de todo o ufanismo parnasiano e a pieguice de bucólicos - remotos - tempos. A própria imagem da nostalgia. Obviamente, deve-se presumir, não será nostálgico. Será romântico, sim. Ultra-romântico. Tal qual fui, sou e hei de ser até que me acabem por completo as pessoas, o mundo, a terra e seus micro-organismos decompositores.
Não escreverei entre suas letras tantos advérbios de negação. Eia, talvez haja neste parágrafo algum espectro de enganação ou falsidade. Mas a creia benévola, meu caro ledor! Será pelo bem do meu estilo iliterado e marginal - se é que há de ter estilo o autor de obra tão visceral. Meus próprios miolos, entranhas, excrementos e fluidos serão meu estilo em quando possuído pelo demônio da concepção prosaica.
Crer-me-ão insano, doente e fanático. Crer-me-ão. Querer-me-ão morto, crucifixado, empalado. Querer-me-ão. Exaltar-me-ão o silêncio, a deficiência e o celibato. Exaltar-me-ão.
Seu nome será Estratagema.