quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Estética do Cotidiano

A maioria das pessoas, atualmente, vive apenas de aparência. Eis o motivo de se precisar tanto de psicólogos, remédios pra dormir e livros de auto-ajuda. Não é chato sustentar relacionamentos, admiração alheia e o próprio bolso através de superficialidades tais quais a beleza, o dinheiro ou uma prolixidade erudita dos infernos. Mas tem seu preço.
O mundo (ou a maior parte dele) é, hoje, um lugar triste como é por que as pessoas perderam a capacidade de se contentar com a beleza simples, o prazer bucólico e outras coisas - que são as que realmente importam. Genericamente, só agrada aquilo que é muito bonito, muito caro ou muito complexo - preferencialmente, as três coisas juntas. Tá aí. Revelado o grande mistério de sua desgraçada infelicidade.
Você tem as pernas, os braços e a cabeça no lugar (anatomicamente falando) - só não pensa nem faz nada de útil a não ser se lamentar por não ser uma pessoa rica, bonita e amada pelo galã da novela das... oito? Nove? Sei lá. A que você mais gostar. Isso tudo nos revela muito mais: é por isso que a cobradora de ônibus é uma mazelada que merece ir para o inferno (junto com o motorista), a garçonete - apesar de gostosa - é uma filha da puta arrogante e sisuda que merece ir para o inferno e o taxista miserável e salafrário é um desgraçado que merece ir para o inferno. Parei com relatar os condenados ao inferno - Deus que se vire com isso.
Às pessoas que inspiraram o parágrafo anterior: espero que o inferno exista mesmo. Vocês vão todas pra lá! Para o INFERNO! Acho que ainda não vai ser muito. Bem que vocês não merecem nem o traquinar dos neurônios a imaginar um tormento pior que o inferno - digno de suas sentenças.
São raras as pessoas que dão o troco sorrindo, dão bom dia de bom grado e esperam, cedem o lugar, têm paciência, balançam a bundinha com felicidade, sorriem por pura falta do quê fazer. Sorrir é legal. São essas as pessoas responsáveis pela parte do mundo que ainda não é triste, mal cheirosa e completamente banal. Digo, a infelicidade é banal, machucar os outros é banal, ser o melhor do mundo em dar foras / cortadas é banal pra caralho. PRA CARALHO.
Tudo bem. Não guardo rancor, nem ódio, nem desânimo. Esses são sentimentos muito ruins. Não é que eu seja bonzinho, não. É por puro egoísmo mesmo - pra não fazer mal a mim. Também por que eu ou você ou as igrejas ou as estudantes malucas de sociologia podemos querer justificar as mazelas alheias: falta de dinheiro, falta de amor, falta de carinho, falta de pênis, falta de sexo, falta de família. Sendo assim, que razão eu tenho pra mandar todos esses condenados pro inferno? Eu sou um filho da puta gordo e barbudo que estuda o que quer estudar na melhor universidade do estado, come comida da boa, enche a cara de vez em quando e ainda fica maldizendo a infelicidade alheia na Internet.
Tudo bem: não guardo rancor, nem ódio, nem desânimo. Mas isso não altera o fato de que vão pro inferno. Vão pro inferno. E se você for infeliz, vá pro inferno você também. Vai pro inferno.