terça-feira, 23 de março de 2010

Eis que já é noite

E a melancolia de sempre está, de volta, à tona. Não faz mal. O dia amanhece sempre mais claro, verde e receptivo - principalmente se chuvoso. Estive a ler - numa dessas horas de descontração anal - trechos de um livro de Sabino. Remontava às estórias escritas por Machado, que em muito me apetecem. Uma em especial: a tragédia Capituniana, que nunca li mas talvez saiba melhor que se, de fato, houvesse lido. O português às vezes (raramente, pra ser mais específico) é feio. Claro que não digo que não prefiro as portuguesas. Deve ser culpa da noite, com essa maresia que tem me trazido ultimamente.
Falava de um princípio de história de amor: uma loura, um funcionário, uma atração - UMA atração: unidirecional. O funcionário que, certamente, babara as certas coxas. Torneadas e pigmentadas daquele tom nauseabundo de pele leitoso. Com quadris e peitos impregnados em olhar tão humilde e subserviente: um funcionário de redação de jornal.
Nunca li muitas obras de Sabino - não quis escrever que não havia apreciado sua obra. Peguei uns livros por engano, trazendo-os entre os poucos que hão aqui comigo. São, em bem da verdade, antiga posse familiar: há em suas contra-capas rabiscos indicando o dono e a série do dono. Meu irmão, primeira série; minha irmã, segunda série; e vieram parar aqui, comigo, em Recife, pleno primeiro período do curso de computação. Quiçá façam a diferença na hora em que estou a realizar as minhas necessidades fisiológicas, como as julgam certos falantes.
Claro que sou adepto da obra machadiana. E ainda assim não digo que lí-la inteira. Mas cada palavra que li de Memórias Póstumas me ensinou uma lição. Lições importantes ao decorrer àquela época. Lições que hoje tenho por completo em esquecimento. Que me valeriam muito se ainda as soubesse hoje.
Trouxe na mala outras coisas sem sentido: roupas, cuecas, livros e um porta-retrato vazio. Vazio: sem retrato. Posso ainda substantivar de porta-retrato? Creio que sim, já que o texto é meu. Mas assim era que estava - sem nenhuma serventia e ainda assim bonito, ansioso por imagem de alguém. A ansiedade é um prato que se satisfaz já frio. Nos come e devora cada segundo de nossa vã impaciência.
Mas as memórias póstumas, não. Não as trouxe comigo, não.